sábado, 30 de novembro de 2024

OS SACRAMENTOS DA INICIAÇÃO CRISTÃ (BATISMO, EUCARISTIA E CONFIRMAÇÃO/CRISMA) - 2a Parte

 Dando continuidade ao texto do blogue anterior, apresento, abaixo, uma explanação sobre a Crisma (ou Confirmação) e a Eucaristia, dentro dos sacramentos da iniciação cristã.

Crisma/Confirmação: 

O Sacramento que torna um cristão adulto na fé; que o torna um soldado de Cristo; que consuma o Batismo (como se o Batismo ainda pedisse um complemento); é a plenitude do dom do Espírito Santo. (No Batismo recebe-se uma pequena amostra desse dom.) Como o herói He Man, agora, podemos dizer: “Eu tenho a força!”. 

Essa presença mais plena do Espírito Santo nos capacita a melhor exercermos a nossa fé cristã: nos dá os dons e os frutos do Espírito Santo! Os dons: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus; os frutos: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (ou autocontrole) [Gl 5, 22-23]. Quem não quer ter esses dons, sentir esses frutos na vida? 

A fé nos leva a acreditar que esses dons acrescentam algo benéfico à nossa vida, ao nosso espírito. Certamente, todos os cristãos devemos buscar este Sacramento. Não precisa levantar a mão, mas pergunto: quem já foi crismado aqui? Ou, quem ainda não foi crismado? Se a resposta é não, a Igreja recomenda fortemente que você busque esse Sacramento: ele muito nos ajuda na busca do bem viver, do bem relacionar-se, enfim, na busca da santidade! E sabemos que o grande objetivo da vida do cristão é, justamente, ser santo! É responder à convocação de Jesus: sede santo como vosso Pai no Céu é Santo! 

Só se recebe o Sacramento da Crisma uma única vez! É marca indelével. É para toda a vida. O ministro (normalmente, o Bispo) unge a testa do candidato e diz as palavras: “Recebe, por este sinal, o dom do Espírito Santo!”. 

Eucaristia: 

É o maior Sacramento nos deixado por Jesus: é a fonte, o coração e, ao mesmo tempo, o ápice, o cume da vida cristã, da vida da Igreja. É a presença real, viva e verdadeira de Cristo nas espécies de pão e vinho consagrados! Na Eucaristia, ou na Comunhão, nós católicos acreditamos piamente que esteja presente o Cristo completo: 100% homem e 100% Deus, e que se dá a nós para a nossa salvação e nossa santificação. 

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo, descido do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. (...) Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna. (...) permanece em mim e eu nele” [Jo 6, 51.54.56]. Essas palavras, no evangelho de S. João, foram causa de escândalo para muitos dos discípulos de Jesus. De fato, a Cruz e a Eucaristia foram, ambas, pedras de tropeço, causas de escândalo para os judeus. 

A Eucaristia é a atualização, a presentificação do único sacrifício de Cristo. É na Missa, no Sacrifício Eucarístico que ocorre a transformação do pão no Corpo de Cristo e do vinho no Sangue de Cristo (tecnicamente: ocorre a “transubstanciação”. A Missa perpetua o sacrifício da Cruz, o sacrifício da nossa salvação. 

Tem vários nomes: Ação de Graças, Ceia do Senhor, Fração do Pão, Assembleia eucarística, Memorial da Paixão, Santo Sacrifício, Santa e Divina Liturgia, Comunhão e Santa Missa. Aliás, de onde vem o nome Missa? Das palavras do sacerdote ao final da celebração: “Ite missa est”, o que quer dizer: Vão, renovados, para a missão! 

Em dois momentos, na Bíblia, Cristo como que celebra a Missa: na última Ceia e no episódio dos discípulos de Emaús. A missa tem duas partes fundamentais: a liturgia da Palavra e a liturgia Eucarística. Em Emaús: Jesus explica as escrituras e, depois, parte o Pão... 

É o próprio Cristo, o sumo sacerdote, quem preside a Celebração Eucarística e, na pessoa do sacerdote, oferece o sacrifício eucarístico.  

A transubstanciação ocorre quando o sacerdote/padre/presbítero (em nome do Bispo) pronuncia solenemente as palavras da última Ceia. Antes, quando ele pede para santificar as espécies de pão e de vinho, é para que esses dons do trabalho humano e da Criação divina sejam verdadeiramente santificados para, depois, tornarem-se o Corpo e o Sangue de Cristo. 

Comunhão supõe estado de graça. Portanto, sem pecado grave. Os pecados leves (veniais) são perdoados pela própria Eucaristia. Mas precisamos estar conscientes disso: se tivermos cometido pecados leves, devemos desejar essa purificação. Além disso, a Comunhão nos preserva dos pecados graves! A Igreja recomenda uma frequência à Eucaristia a maior possível. Para quem puder, recomenda até a comunhão diária (missa diária). É claro que isso supõe buscar o sacramento da reconciliação com alguma frequência, também. 

Aliás, disposição interior do cristão é fundamental para a recepção de todo e qualquer sacramento. Estar em estado de graça significa estar previamente em comunhão com Deus e com os irmãos, portanto, sem pecados graves. 

A visita ao Santíssimo Sacramento presente no tabernáculo, ou no Sacrário (onde estão as reservas eucarísticas), ou exposto no Ostensório é nosso dever de adoração para com Cristo. É prova de gratidão, de amor, de fé, e de reconhecimento de que Cristo é, de fato, nosso Deus maravilhoso! 

Conclusão: 

Meus queridos irmãos em Cristo, com esta reflexão, buscamos explicitar alguns dos muitos aspectos importantíssimos ligados a esses três Sacramentos da Iniciação Cristã. Que possamos refletir sobre eles, ler sobre eles, aprofundar a cada dia o significado de todos os sacramentos, e, sobretudo, vivenciá-los, darmos testemunhos dos seus efeitos em nossa vida, para que possamos crescer na fé e ajudar os nossos entes queridos e a Igreja a crescer a cada dia na santidade tanto desejada por Nosso Senhor Jesus Cristo! 

 

 

Conteúdo da palestra para o ECC, 2ª Etapa: prof. Wilson Aragão Filho. Aposentador, Chanceler da Cúria Metropolitana de Vitória; uilso.arag@gmail.com.


Uilso Aragono (Nov. de 2024).

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

OS SACRAMENTOS DA INICIAÇÃO CRISTÃ (BATISMO, EUCARISTIA E CONFIRMAÇÃO/CRISMA)

 Neste texto, faço uma reflexão sobre os chamados sacramentos da iniciação cristã: o Batismo, a Confirmação (ou Crisma) e a Eucaristia. Apresento, inicialmente, alguns conceitos teológico-doutrinais do Catolicismo que contribuirão para melhor compreensão da reflexão sobre o tema.

Sacramentos: realizam o que significam; o símbolo da água que lava, purifica dos pecados, verdadeiramente realizam esse significado! O óleo no peito da criança (ou na testa do adulto, na crisma) simboliza a unção, a eleição do Senhor pela pessoa que, como Cristo, é ungida, e realiza efetivamente essa unção, essa missão; as palavras do sacerdote: “Eu te absolvo desses teus pecados confessados” simbolizam e significam o perdão de Deus e efetivamente o realiza; as palavras dos noivos, diante da testemunha oficial da Igreja, que se acolhem um ao outro como marido e mulher, por toda a vida, bem como as alianças, simbolizam um contrato perpétuo e o realizam verdadeiramente diante de Deus; os símbolos e os ritos usados na consagração do sacerdote, do padre (ou presbítero), em sua ordenação, simbolizam e efetivamente realizam o que simbolizam: o candidato à ordem recebe de Deus, verdadeiramente, tudo aquilo que os sinais significam; o óleo da unção dos enfermos, e os ritos dessa unção simbolizam as curas espiritual e física do doente e, efetivamente, de verdade, as realiza.

Sacramentos Indeléveis: No Batismo, na Crisma/Confirmação, e na ordenação diaconal/sacerdotal/episcopal (1°, 2° e 3° graus da Ordem, respectivamente) a marca do sacramento é indelével, isto é, para toda a vida da pessoa. Mesmo, portanto, que um sacerdote deixe de ser padre, voltando à condição de leigo (estado laico), ele não deixa de ser um sacerdote do Senhor, apenas fica afastado de suas funções; que podem ser retomadas em caso de risco de vida de alguma pessoa, quando, então, ele pode atuar como sacerdote. No caso de um casal, casado validamente diante de Deus, a marca indelével é para toda a vida do casal: um deles morrendo, essa marca desaparece e o sobrevivente poderá casar-se novamente (ou quando a união for, oficialmente, declarada nula pela Igreja). São como tatuagens espirituais que marcam para sempre a vida de uma pessoa (supondo que essas tatuagens não possam, de fato, ser removidas).

Graus espirituais: na vida espiritual, como na vida física, os dons de Deus, as graças, as bênçãos, as glórias, têm graus de quantidade ou de profundidade; no Batismo, a criança recebe também o Espírito Santo, mas como uma pequena dose, enquanto que para o adulto que recebe o Sacramento da Crisma, o dom do Espírito Santo é dado em plenitude (em grau pleno); Na domingo da Páscoa, Jesus sopra sobre os apóstolos dizendo: recebam o Espírito Santo, mas numa dose pequena, que somente será plena em Pentecostes; Os santos de Deus, no Céu, têm graus de glória diferentes; é como se diz: cada “copo” estará diante de Deus plenamente cheio, mas o tamanho do copo é diferente para cada alma; por isso, podemos rezar pelo nosso anjo da guarda, pedindo para ele um grau de glória maior, diante de Deus.

O tempo espiritual: existe, sim, um tempo espiritual para as almas que já estejam no Purgatório ou no Céu, é o chamado “evo”; somente Deus não muda, somente ele vive a eternidade, somente Ele é eterno; nós, criaturas de Deus, somos imortais, no sentido de que não morreremos para sempre, mas viveremos no evo, o tempo espiritual; explica-se: assim como o tempo físico supõe a mudança das coisas e das pessoas (que envelhecem), no tempo espiritual, as almas também supõem mudança, crescimento na santidade e nos graus de glória; por isso as almas do purgatório podem se santificar, se purificar e, em algum momento espiritual, estarem prontas para irem para o  Céu.

Disposição interior: é o estado de espírito e de consciência que a pessoa deve ter para que o Sacramento tenha efeito. Assim como somente pecamos, de verdade, com consciência e liberdade, também para a recepção válida e efetiva dos sacramentos precisamos demonstrar consciência e liberdade.

Batismo:

O Sacramento que torna uma criança cristã, que a integra à Igreja Católica, que lhe perdoa o pecado original e lhe dá uma “dose” do Espírito Santo; que torna o adulto (catecúmeno) um cristão, um filho de Deus, que lhe perdoa o pecado original e todos os pecados pessoais, preparando-o para a recepção dos Sacramentos da Crisma e da Eucaristia. (Sem necessidade do sacramento da penitência, mesmo porque o catecúmeno ainda não tem acesso a esse Sacramento!)

A água do Batismo nos faz morrer para os pecados e ressuscitar com Cristo para uma vida nova: a vida de ungidos, de cristãos (vem da palavra Cristo = ungido = Messias). A Igreja nos ensina (Código de Direito Canônico) que uma vez batizados na Igreja Católica, sempre católicos, mesmo que abandonemos a Igreja e a troquemos por outra, ou passemos a ser ateus. (É claro que para que retornemos à Igreja de Cristo, deveremos fazer, por escrito, uma renovação da fé católica e das promessas do Batismo diante de uma testemunha oficial da Igreja e buscar o Sacramento da Penitência para estar em estado de graça e voltar a participar dos demais sacramentos.)

O Batismo nos tira da condição de criaturas de Deus para a condição mais elevada de filhos de Deus. Embora Deus ame todas as suas criaturas, ele tem um especial amor pelos seus filhos em Cristo Jesus. Com o Batismo transformamo-nos em profetas, sacerdotes e reis: as três dimensões da vida cristã do leigo.

Só se batiza uma vez! É um sacramento indelével, uma “tatuagem” espiritual. Por isso, a Igreja Católica aceita o Batismo de muitas igrejas protestantes. Mas não aceita o batismo, dentre outras, da Igreja católica brasileira. Porque o Batismo válido deve seguir a fórmula trinitária: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, uso da água pura e a intenção de seguir a Cristo. Na dúvida, há o Batismo sob condição: “Se você, fulano, não foi batizado, eu te batizo em nome ...”)

Por que batizar uma criança em perigo de vida se a Igreja acredita que Deus tenha uma solução de salvação para as que morrem sem Batismo? Porque, com o Batismo, a alma da criança terá uma melhor situação diante de Deus: será uma cristã, uma filha de Deus, e não uma mera criatura de Deus.

O Batismo ainda pede um complemento... A Crisma.

Continua no próximo blogue.

Uilso Aragono. (outubro de 2024)

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

SETEMBRO: O MÊS DA BÍBLIA SAGRADA

 Neste blogue, a propósito do mês de setembro, em que se celebra o mês da Bíblia na Igreja Católica, vou apresentar um resumo e um esquema dos seus vários livros. Em vários textos dos próximos meses, creio que ainda esteja apresentando esses resumos e esquemas.

1. GÊNESIS (Gn; 50 capítulos) [Estes primeiros 5 livros são chamados: Pentateuco]

Essa palavra quer dizer “começo”. É um livro que conta como tudo foi criado e tudo o que se passou no início da vida humana na Terra: como Deus, no começo, apareceu às pessoas e mostrou como deveriam ser obedientes a Ele.

                Esquema:

                A criação do Universo e da raça humana;

                O começo do pecado e do sofrimento;

                De Adão até Noé;

                Noé e o dilúvio;

                A torre de Babel;

                De Sem até Abrão;

                Isaque e Jacó;

                Os descendentes de Esaú;

                José e os seus irmãos;

                Os israelitas no Egito.


2. ÊXODO (Êx; 40 capítulos)

Essa palavra quer dizer “saída”, e esse livro fala do evento mais importante da história do povo de Israel: a saída deles do Egito, onde eram escravos.

                Esquema:

                Os israelitas são libertados da escravidão do Egito;

                                1. A escravidão no Egito

                                2. O nascimento de Moisés e a primeira parte de                                       sua vida

                                3. Moisés e Arão, e o rei do Egito

                                4. A Páscoa e a saída do Egito

                Do mar Vermelho ao monte Sinai;

                A Lei e a Aliança;

                A Tenda Sagrada e as instruções para a adoração.

               

3. LEVÍTICO (Lv; 27 capítulos)

Nesse livro estão as leis e os mandamentos que Deus ordenou a Moisés dar ao povo de Israel. A principal lição é esta: o Deus do povo de Israel é santo e seu povo deve também ser santo!

                Esquema:

                Leis e a respeito de ofertas e sacrifícios;

                A ordenação de Arão e dos seus filhos para serem

                    sacerdotes;

                Leis a respeito de pureza e impureza cerimoniais;

                O Dia do Perdão;

                Leis a respeito da vida santa e da adoração santa.


4. NÚMEROS (Nm; 36 capítulos)

Chama-se “números” porque foram feitas duas contagens do povo israelita: quando saíram do Egito e antes de entrarem na terra de Canaã. Conta a história de um povo hesitante, com medo e revoltoso, que, no entanto, contava com a firmeza e a dedicação de Moisés e com o cuidado constante de Deus, através desse seu Escolhido.

                Esquema:

                Os israelitas se preparam para sair do monte Sinai;

                               1. A primeira contagem do povo

                               2. Várias leis e regulamentos

                               3. A segunda Páscoa

                Do monte Sinai até Moabe;

                O que aconteceu em Moabe;

                Resumo da viagem do Egito até Moabe;

                Deus prepara o povo antes da travessia do rio Jordão.

 

5. DEUTERONÔMIO (Dt; 34 capítulos)

Nesse livro estão os discursos que Moisés fez quando o povo de Israel estava na terra de Moabe. Moisés recorda ao povo o que Deus fez por eles nesses quarenta anos de travessia do deserto. O livro mostra o amor de Deus pelos israelitas, a quem Deus escolheu como seu povo. É muito importante o versículo 5° do capítulo 6°, pois foi citado pelo próprio Senhor Jesus: “Amem o Senhor, nosso Deus, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças”.

                Esquema:

                O primeiro discurso de Moisés;

                O segundo discurso de Moisés;

                O terceiro discurso de Moisés;

                Os últimos conselhos de Moisés;

                A bênção de Moisés;

                A morte de Moisés.

Esses 5 primeiros livros da Bíblia Sagrada também são conhecidos como o Pentateuco, e pelos judeus, como a Torá.

No próximo blogue, darei continuidade a outros livros da sequência da Bíblia, conforme essa edição da Editora Paulinas.

 

Referência: Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Paulinas Editora, São Paulo, 2011.

Uilso Aragono (setembro de 2024)

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

MITRA E CÚRIA: QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS

 Os termos “Mitra” e “Cúria” são, muitas vezes, mal compreendidos. Quais são as diferenças entre eles? Este artigo busca tentar esclarecer essas diferenças, conceituando cada um deles em termos teóricos e práticos. Importante, desde logo, esclarecer que o bispo de uma diocese (ou arquidiocese) católica é, pela natureza da função, ao mesmo tempo: pastor, juiz, administrador e ecônomo da diocese. Por isso os três grandes pilares de apoio ao bispo, que não pode cuidar, sozinho, de todos esses aspectos de sua missão episcopal: a Mitra, a Cúria e o Tribunal Eclesiástico.

MITRA

O termo Mitra pode estar associado a dois conceitos: 1) É o paramento litúrgico utilizado por um bispo em cerimônias religiosas (aquele “chapéu” grande e pontudo que o bispo usa em suas funções litúrgicas, na Missa, por exemplo); 2) É uma entidade jurídica responsável pela administração dos bens materiais da diocese.

Este segundo significado é o que nos interessa, neste artigo. A Mitra cuida do patrimônio da diocese, incluindo paróquias, seminários e outros bens. É uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, e com finalidade religiosa. É, portanto, a parte administrativa e econômico-financeira da diocese.

CÚRIA

O termo Cúria é um órgão administrativo-pastoral da diocese. Este termo deriva do latim medieval e significa “corte”, como uma “corte real”. A Cúria é composta pelas principais autoridades da diocese e auxilia o bispo no governo da Igreja local. Inclui o vigário-geral (ou os vigários-gerais), os vigários episcopais, o chanceler, os notários, o diretor financeiro e outros funcionários designados pelo bispo.  Inclui também um conjunto de organismos administrativos e pastorais de auxílio ao bispo.

DIFERENÇAS ENTRE MITRA E CÚRIA

As principais diferenças, portanto, entre Mitra e Cúria podem ser assim destacadas:

A Mitra é uma entidade mais administrativa e econômico-financeira do que pastoral, enquanto a Cúria é, ao contrário, mais pastoral do que administrativa.

A Mitra é responsável por aspectos econômico-financeiros e administrativos dos bens materiais da diocese, envolvendo o ecônomo da diocese (às vezes um presbítero na função de vigário episcopal para assuntos econômicos), o possível Conselho para Assuntos Econômicos, e visando ao apoio ao bispo no que tange ao patrimônio geral da diocese.

A Cúria é responsável por aspectos mais pastorais, envolvendo o Colégio de Consultores (o antigo Cabido de cônegos), o Conselho Presbiteral, o Departamento de Pastoral e várias coordenações e comissões pastorais.

NA PRÁTICA               

Para dar exemplo de estruturação de uma diocese que contempla a Mitra e a Cúria, seja a Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo – AVES (site: www.aves.org.br):

A MITRA da AVES apresenta os seguintes organismos:

1.  Gerente Administrativo;

2.  Departamento de Suprimento;

3.  Departamento de Tesouraria;

4.  Departamento de Pessoal;

5.  Departamento de Contabilidade;

6.  Ecônomo ou Vigário Episcopal para assuntos Econômicos;

7.  Colégio de Consultores.

                A CÚRIA da AVES, por sua vez, apresenta os seguintes organismos:

1.   Bispo Auxiliar (ou Bispado Auxiliar);

2.   Vigários Gerais (ou Vicariato Geral);

3.  Clero secular e religioso;

4.   Comissão Arquidiocesana de Pastoral;

5.   Departamento de Pastoral;

6.   Chancelaria e Centro de Documentação;

7. Vicariato Episcopal para Ação Social, Política e Ecumênica;

8.  Vicariato Episcopal para a Comunicação;

9.  Áreas Pastorais;

10.  Seminário Nossa Senhora da Penha;

11.  Centro de Treinamento Dom João Batista;

12.  Paróquias (91) e Comunidades Eclesiais (1022);

13.  Revista Vitória;

14.  Rádio América;

15.  Pastorais Sociais (11);

16.  Projetos Sociais (21);

17. Santuários (N. S. da Penha, S. Antônio, Divino E. Santo, N. S. do Rosário de Fátima e Bom Pastor);

18. Reitoria N. S. das Graças;

19. Conselho Presbiteral;

20. Tribunal Eclesiástico.

Em resumo, enquanto a Mitra se concentra na administração econômico-financeira dos bens materiais da Diocese, a Cúria é responsável pela administração geral e apoio ao bispo no governo pastoral da Diocese. 

Uilso Aragono (agosto de 2024)

quarta-feira, 31 de julho de 2024

VIGÁRIO GERAL, VIGÁRIO EPISCOPAL E BISPO AUXILIAR

 Neste bloque apresento os conceitos fundamentais relativos aos cargos de Vigário Geral, Vigário Episcopal e Bispo Auxiliar em uma diocese católica. O que são e o que fazem na diocese?

1. Vigário Geral

O Vigário Geral é um sacerdote nomeado pelo Bispo diocesano para auxiliá-lo na administração da diocese, desempenhando várias tarefas administrativas e judiciais, além de representar o bispo em suas ausências. O Vigário Geral tem poder ordinário (isto é, de Bispo) e ajuda o Bispo no governo de toda a diocese.  

Idade mínima

Segundo o Código de Direito Canônico (CDC), o Vigário Geral deve ser um sacerdote com pelo menos trinta anos de idade, doutor ou licenciado em direito canônico ou teologia, ou pelo menos verdadeiramente perito nessas disciplinas, e recomendado pela sã doutrina, probidade e experiência.

O Vigário Geral é único, mas...

Em tese, deve existir somente um Vigário Geral na diocese. No entanto, tendo em vista a dimensão da diocese, a quantidade de fiéis ou outras razões pastorais, o Bispo pode nomear um segundo, como ocorre, por exemplo, na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, em que existem dois padres nomeados como Vigários Gerais: os padres Ivo Ferreira de Amorim e Jorge de Campos Ramos.

Nomeação e remoção

A nomeação do Vigário Geral, ou a sua remoção, é de livre decisão do Bispo diocesano, dentre os presbíteros (padres) de sua diocese. No entanto é obrigatória a nomeação de pelo menos um Vigário Geral, segundo o CDC.

Sem parentesco com o Bispo titular

Interessante notar que o cargo de Vigário Geral não pode ser confiado a padres que sejam parentes do Bispo até o quarto grau de consanguinidade, o que na prática popular é chamado de primos de primeiro grau.

Responsabilidades do Vigário Geral

Algumas  responsabilidades possíveis do Vigário Geral incluem:

Ø  Administração Diocesana:

Supervisionar o funcionamento geral da diocese, incluindo questões financeiras, recursos humanos e propriedades.

Coordenar a implementação das políticas diocesanas.

Ø  Justiça Eclesiástica:

                Atuar como juiz ou promotor em casos de direito canônico, como anulações matrimoniais ou disputas sobre propriedades da igreja.

                Supervisionar tribunais eclesiásticos diocesanos.

Ø  Representação do Bispo:

                Representar o bispo em reuniões, eventos e visitas pastorais.

                Agir como delegado do bispo em assuntos específicos.

Ø  Coordenação Pastoral:

                Colaborar com os vigários paroquiais e outros líderes pastorais para promover a missão da igreja.

                Auxiliar na implementação de programas pastorais.

Ø  Administração de Pessoal:

                Supervisionar o clero e os funcionários leigos da diocese.

                Gerenciar nomeações e transferências de sacerdotes.

Enfim, “em virtude de seu ofício, compete ao Vigário Geral, na diocese toda, o poder executivo que, por direito, pertence ao Bispo diocesano, para praticar todos os atos administrativos, exceto aqueles que o Bispo tenha reservado a si, ou que, pelo direito, requeiram mandato especial do Bispo” (Cân. 479 do CDC).

Finalmente, o poder do Vigário Geral expira por término de mandato, por renúncia, por destituição ou pela vacância da Sé episcopal. Portanto, ficando a diocese, definitivamente, sem o seu Bispo, por qualquer motivo, cessa o poder do Vigário Geral.

2. Vigário Episcopal

O Vigário Episcopal, na Igreja Católica, é um padre ou, mais frequentemente, um Bispo. Assim como o Vigário Geral, ele possui poder executivo concedido pelo Bispo diocesano.

Podem existir vários Vigários Episcopais

Mas neste caso, podem ser constituídos vários Vigários Episcopais numa mesma diocese, porque cada um terá autoridade restrita a uma região da diocese, ou a uma espécie de questão (para a comunicação, por exemplo), ou quanto a fiéis de um determinado rito ou certa classe de pessoas (Cân. 476 do CDC).

Podem existir em uma diocese, portanto, e como exemplos, vários Vigários Episcopais: para assuntos econômicos, para comunicação, para ações e projetos sociais, para políticas públicas etc.

No mais, o que foi dito em relação ao Vigário Geral, aplica-se ao Vigário Episcopal.

3. Bispo Auxiliar

É um bispo titular que auxilia o Bispo diocesano. Pode ser designado para servir uma parte específica da diocese ou atender a uma população específica e não tem direito a sucessão, a não ser que seja um Bispo Coadjutor (ou Auxiliar com direito a sucessão).

Bispo Coadjutor com direito a sucessão

Como um exemplo cite-se o caso do Bispo Auxiliar de Vitória do Espírito Santo, D. Silvestre Luís Scandian, quando foi nomeado pelo Papa João Paulo II para ser auxiliar do então Bispo D. João Batista da Mota e Albuquerque, e com direito à sua sucessão, após a idade de 75 anos, quando o Bispo titular deve apresentar sua renúncia ao Papa, ou quando do seu falecimento.

No caso exemplar, D. João Batista da Mota e Albuquerque, então primeiro Arcebispo da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, faleceu antes de completar a idade limite, na data de 27 de abril de 1984. Nesse mesmo dia, tomou posse, automaticamente, o seu Bispo Auxiliar (com direito a sucessão) D. Silvestre Luís Scandian, como o segundo Arcebispo da Arquidiocese.

Bispo Auxiliar de uma região da diocese

A exemplo do Vigário Episcopal, o Bispo Auxiliar pode ser designado para servir uma parte específica da diocese ou atender a uma população específica, como é o caso da Arquidiocese de São Paulo, que tem vários bispos auxiliares para as várias regiões da Metrópole.

O Bispo Auxiliar é, sempre, um Bispo Titular

O Bispo Auxiliar é sempre um Bispo Titular de alguma diocese já extinta da Igreja católica. Como exemplo, seja o Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, que é Bispo Titular dos Títulos de Numídia.

Esses são os conceitos fundamentais relativos a Vigário Geral, Vigário Episcopal e Bispo Auxiliar, conforme as diretrizes do Direito Canônico da Igreja Católica.

Uilso Aragono. (julho de 2024)

sexta-feira, 28 de junho de 2024

O QUE FAZ O CHANCELER DE UMA DIOCESE, NA IGREJA CATÓLICA

 

A função do Chanceler diocesano, na igreja católica, não é muito conhecida pelos fiéis, mas é um cargo obrigatório dentro da Igreja, previsto pelo CDC – Código de Direito Canônico (cânones 482 a 491). E o que faz um Chanceler?

O Chanceler é um notário e um secretário da Cúria. Sua função principal é redigir e despachar documentos, como nomeações, provisões, decretos, portarias e atas, autorizações, licenças de proibições e impedimentos matrimoniais, cartas e atas de ordenação etc., todos com efeito jurídico-canônico. Para que sejam válidos, esses atos precisam ser assinados tanto pelo Bispo (ou pelo vigário geral) quanto pelo Chanceler. Também é responsável pela correspondência oficial do Bispo diocesano.

O Chanceler pode ser padre, diácono, religioso ou leigo, tanto homem quanto mulher, supondo-se, naturalmente que seja pessoa acima de qualquer suspeita. No entanto, quando a questão trata da reputação de um sacerdote, o CDC prevê que o Chanceler seja um outro sacerdote.

Além dessas funções acima, o Chanceler também é ou pode ser responsável por:

1. Lavrar a ata da posse do Bispo;

2. Solicitar a lista tríplice, que é um documento, solicitado ao Bispo, que contém três nomes de sacerdotes para o caso de impedimento ou vacância do Bispo da diocese, renovada a cada três anos. Essa lista contém nomes de possíveis administradores diocesanos, caso a diocese fique sem governo, e deve ser mantida em sigilo pelo Chanceler;

3. Zelar pelo arquivo diocesano, que deverá ser fonte histórica e disponível para pesquisa por estudiosos, historiadores ou qualquer pessoa interessada;

4. Assessorar canonicamente o Bispo e os membros da Cúria, dependendo, naturalmente, da formação do Chanceler;

5. Coordenar liturgicamente a diocese, se essa for a opção do planejamento diocesano;

6. Redigir e manter os livros de tombo da Cúria, a cada ano, livros em que são registrados todos os mais importantes atos da Cúria, com termos de abertura e fechamento, para cada um deles;

7. Recolher dados estatísticos das paróquias, instituições e organismos da diocese e transmiti-los à Secretaria de Estado da Santa Sé, para compor a Estatística anual da Igreja Católica no mundo.

Como é escolhido o Chanceler? O Chanceler é escolhido diretamente pelo Bispo diocesano (autoridade máxima na diocese), nomeando-o por um decreto de nomeação, que já deverá ser assinado pelo Bispo e pelo próprio Chanceler nomeado; podendo, alternativamente, ser assinado pelo Vigário Geral (como Chanceler ad hoc (para a ocasião) juntamente com o Bispo.

O chanceler pode ser removido do cargo pelo Bispo diocesano, mas não pelo administrador diocesano, a não ser com o consentimento do colégio de consultores (Cân. 485).

Interessante notar que o Chanceler não perde seu cargo durante a mudança do Bispo titular, diferentemente dos demais cargos na Cúria e na Mitra: diretor geral, vigários gerais, vigários episcopais, reitores etc., justamente porque é atribuição do Chanceler receber a documentação do novo Bispo e exarar a ata de sua posse. Uma vez tendo tomado posse, o Bispo poderá confirmar ou não os responsáveis pelo cargos citados, por meio de provisões e decretos elaborados pelo Chanceler e assinados por ambos.

Quais as competências esperadas de um Chanceler? Na atualidade, o trabalho na chancelaria pressupõe conhecimentos em: informática, legislação civil e canônica e algum conhecimento arquivístico (por conta dos arquivos diocesanos a serem mantidos), além de primar por um bom inter-relacionamento pessoal, especialmente com o Bispo e com os funcionários de apoio ao Bispo.

Em conclusão, a Chancelaria e o Chanceler constituem um organismo e um cargo essenciais dentro da estrutura da Igreja Católica, pois estão, obrigatoriamente, presentes em todas as dioceses e no próprio Vaticano.

Uilso Aragono (junho de 2024).


quinta-feira, 30 de maio de 2024

SÃO JOSÉ NÃO FALHA: PRECISAMOS DE CEM RENAS!

O texto abaixo é tirado da Referência citada (ao final) e conta um milagre ocorrido em 1917 numa estação missionária chamada São José, do norte do Canadá, por intercessão do Santo.

Um vento tremendamente gelado sopra por sobre o Grande Lago dos Escravos, no norte do Canadá, e uiva furioso em torno da estação missionária São José. Centenas de crianças índias, porém, recolhidas no orfanato dos Oblatos, pouco se preocupam com o companheiro selvagem lá fora. Estão acostumadas ao frio e às tempestades.

Muito mais que o rugir dos elementos, incomoda-as o ronco de sua barriguinha vazia. Em março de 1917, a missão enfrentou uma grande provação. A pescaria do outono havia sido muito magra, a caça às renas foi nula, uma vez que os rebanhos se retiraram para outras paragens. As pobres Irmãzinhas não sabem mais com que matar a fome de seus pupilos.

À tarde, os garotos sentam-se no refeitório, e engolem ávidos o pedaço de peixe que a Irmã lhes distribui.

– Por que os Irmãos não apanharam mais peixes? – Resmunga um deles, que já dera cabo de sua porção, mas a fome continuava reclamando.

– Não é culpa dos Irmãos, menino, explica Pe. Duport. A culpa é de vocês, se as panelas estão vazias.

– Nossa culpa, como? – admira-se o pequeno índio.

– Sim, a culpa é de vocês. E eu estou zangado com vocês. Por quê vocês não rezam com mais devoção a São José, nosso padroeiro? Pensam que ele iria deixar vocês com fome, se lhe gritassem bem forte nos ouvidos?

Os garotos arregalaram os olhos, olhando-se perplexos, e prometeram reparar a falta e rezar com toda força a São José.

– O que a Irmã acha? Quantas renas precisaríamos para enfrentar a época mais dura da fome? – perguntou o padre à superiora.

– Uma centena pelo menos! responde categoricamente a religiosa.

– Então São José precisa nos arranjar cem renas! Estou convencido de que ele há de atender à oração das crianças. Amanhã começamos a novena!

Ao nono dia da oração, o Superior manda chamar dois índios da tribo da Faca Amarela, caçadores práticos, e lhes ordena secamente:

– Atrelem os cães e se mandem logo à caça! Tragam cem renas!

 – Renas? Onde há renas por aqui, padre? – sacodem os ombros os incrédulos índios. – Não mataremos é nenhuma, isto sim!

– Deixem de lero-lero, gente. Aprontem-se e toquem pra frente! As crianças sofrem fome!

– O Grande Espírito deve ter transtornado a cabeça do padre branco! – dizem entre si os Facas Amarelas, ao encilharem os cães aos trenós.

– Não vamos ver nem rabo de rena.

Mas vão. A umas milhas do convento topam realmente com enorme manada de animais, que vem se dirigindo para o lago gelado. Os índios empunham as armas e desandam a disparar o quanto der. Dos espécimes que tombaram, contam 103.

Depressa carregam nos trenós, retornando à estação missionária, onde a petizada os recebe com estrondosa algazarra.

– Encomendamos cem. Três São José acrescentou de lambuja, conferem todos, radiantes de satisfação. Primeira vez, desde semanas, que os garotos comeram à vontade e com a barriguinha farta foram para a cama, sem se esquecerem de antes ir agradecer, do fundo do coração, a São José pelo bondoso milagre. (Revista Stadt Gottes.)

Referência: Livro:  Weigl, A. M. São José não falha: 100 histórias de São José, Edições Rosário, Curitiba, 1994, p.8.

Uilso Aragono (maio de 2024)

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Sou formado em Engenharia Elétrica, com mestrado e doutorado na Univ. Federal de Santa Catarina e Prof. Titular, aposentado, na Univ. Fed. do Espírito Santo (UFES). Tenho formação, também, em Filosofia, Teologia, Educação, Língua Internacional (Esperanto), Oratória e comunicação. Meu currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4787185A8

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