domingo, 30 de maio de 2010

A Mãe de Jesus no Evangelho

Alguns cristãos dizem que Maria, a Mãe de Jesus, foi uma mulher como qualquer outra! Isto não deixa de ser verdade. No entanto, é apenas uma meia-verdade! Segundo se verifica nos textos dos quatro evangelistas, muitas passagens há que demonstram a mulher especial que foi e é Maria, a Mãe de Jesus.

1. A Cheia de Graça

Logo no início do Evangelho de Lucas, Maria recebe a visita do Anjo do Senhor que a saúda, não por seu nome, mas por um título especial: "Alegra-te Cheia de Graça"; e ainda completa: "O Senhor está contigo" (Lc 1,28 ou Lc 1:28). Ao final de suas palavras, o Anjo conclui: "Por isso o Santo que vai nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35 ou Lc 1:31). Ora, não deve ser difícil de perceber que uma pessoa que recebe uma visita do próprio Deus - pois o Anjo é mensageiro de Deus! – e recebe uma missão única e especial, não pode ser considerada uma pessoa qualquer, mas merece, no mínimo os títulos, atribuídos pelo próprio Senhor: Maria, "Cheia de Graça"; Maria, "Mãe do Filho de Deus".

2. A Mãe do Messias

No Evangelho de Mateus, observa-se que a descrição da genealogia de Jesus segue o esquema: "Jeconias foi o pai de Salatiel; Salatiel foi o pai de Zorobabel..." (Mt 1,12.13 ou Mt 1:12,13), isto é: um pai gerando um filho homem. No entanto, quando se chega a José, o esquema é rompido: não se diz "José, foi o pai de Jesus", mas sim: "José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Messias" (Mt 1,16 ou Mt 1:16). A importância de Maria é ressaltada pelo Evangelho, mais uma vez, quando lhe atribui mais um título: "Maria, Mãe do Messias". Ora, títulos são atribuídos a pessoas especiais...

3. A Bem-aventurada

Uma outra passagem evangélica é aquela em que Isabel, sua prima já idosa, e grávida de João Batista, ouve sua saudação e percebe que a criança pula de alegria em seu seio. E Isabel, "cheia do Espírito Santo" proclama, em alta voz, Maria, como a "bendita entre todas as mulheres" ( Lc 1,42 ou Lc 1:42), e se reconhece honrada, feliz, admirada pelo fato de que "a Mãe de meu Senhor venha visitar-me!" (Lc 1,43 ou Lc 1:43). Esta manifestação de Isabel, outra mulher tocada por uma graça especial de Deus, é claramente, uma manifestação de duas pessoas da Santíssima Trindade: de Jesus, que ainda no seio de Maria, e por meio de Maria, já transmite suas benevolências e suas graças a quem visita, a Isabel; e do Espírito Santo, que inspira Isabel a reconhecer, sem qualquer aviso humano prévio, a presença no seio de Maria, do "seu Senhor"! Esta passagem, por si só, já é um testemunho eloquente de que Maria é uma mulher especial, "bendita entre todas as mulheres". Ora, estas são palavras ditas, não por Isabel, não apenas por sua boca, mas palavras divinas, manifestação do Espírito Santo, para todos os futuros cristãos. Quem pode negar autoridade, ao "Espírito da Verdade", que nos revela, por boca de Isabel, a grandeza de Maria? Isabel, cheia do Espírito Santo, ainda proclama Maria como "Bem-aventurada, aquela que acreditou..." (Lc 1,45 ou Lc 1:45). Da mesma forma que Isabel, todo cristão, que se diz "cheio do Espírito Santo", deveria ser capaz de louvar Maria como a "Bem-aventurada", merecedora, portanto, de todo seu amor filial, com a mesma força de amor com que Jesus, sem qualquer dúvida, amou e ama sua Mãe Maria. Desta análise, pode-se concluir por mais um título dado a Maria, pelo Espírito Santo, pela boca de Isabel: "Maria, Mãe do (meu) Senhor".

4. Bendita por todas as gerações

E não bastando a manifestação dupla da divindade, a própria Maria, ainda uma jovem de seus quinze anos, cheia do Espírito de Deus, "cheia de graça", como afirmou o anjo Gabriel, explode num canto de louvação e de exaltação a Deus pelas maravilhas que realizava nela: "Minha alma glorifica o Senhor, exulta meu espírito em Deus meu Salvador..." (Lc 2,46 ou Lc 2:46). Este canto, conhecido como "Magnificat" é, sem qualquer dúvida, divinamente inspirado e nele se lê e se ouve a proclamação extraordinária e profética em relação à humilde escrava do Senhor: "...doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada" (Lc 2,48 ou Lc 2:48). Maria, então, é proclamada pelo Espírito Santo, conforme o Evangelho, bendita e bem-aventurada entre todas as mulheres. Se Maria é uma mulher qualquer, ou comum, o é, de fato, por ser absolutamente humana e verdadeiramente mulher; mas é, ao mesmo tempo, como visto, uma Mulher superespecial! E sendo esta uma "palavra do Evangelho", uma "palavra de Deus", pode-se perguntar se não deveria estar sendo colocada em prática por todos os cristãos. Não seria o caso de "todos" os cristãos" estarem realizando esta profecia, nascida dos lábios de Maria, por influxo do próprio Espírito Santo? O que justifica que nem todos os cristãos coloquem em prática esta palavra do Evangelho?... O fato de alguém se dizer cristão e, apesar disto, não louvar Maria, proclamando-a "feliz", "bem-aventurada", deveria provocar nessa pessoa um sério questionamento: estou vivendo uma vida cristã verdadeira e completamente evangélica?...

5. A Intercessora de Caná

No Evangelho de João, Maria é apresentada, no episódio das bodas de Caná, como uma mulher tão especial que é capaz de alterar a "hora" do Senhor, isto é, os planos de Deus para Jesus. Pois apesar de Jesus recusar fazer algo, diante do alerta de sua Mãe, esta dirige-se aos empregados e lhes pede: "façam o que ele mandar". E Jesus, rendendo-se ao desejo de sua Mãe, por seu grande amor filial, realiza o seu primeiro grande "sinal", seu primeiro milagre: transforma a água em vinho, num vinho de qualidade insuspeita. O Senhor alterou a "sua hora", a partir da intercessão de sua Mãe. Esta é apresentada por João Evangelista, portanto, como aquela que pode e quer colocar-se entre nós e seu Filho, em dupla missão: quer pedir por nós a Ele, e quer nos alertar, continuamente, a "fazer o que ele mandar". O Evangelho, então, claramente confere a Maria, um outro título: "Maria, Nossa Intercessora". Se Jesus é apresentado, pelo Evangelho, como nosso grande e único Intercessor diante do Pai, Maria é, por sua vez, apresentada como nossa intercessora diante de seu Filho. Que Mulher comum e especial é, ao mesmo tempo, a Mãe de Nosso Senhor Jesus! Um cristão que não reconheça esta verdade evangélica, pode se considerar um cristão de verdade? Pode se considerar um seguidor do Evangelho?...

6. A oração "Alegra-te Maria"

O Evangelho ensina aos cristãos algumas importantes orações, dentre elas o Pai-Nosso, considerada por muitos, como uma oração universal, isto é, que pode ser pronunciada por todos que creem em Deus. No entanto, outras orações existem, que se referem à sua Mãe: o "Magnificat " (Lc 2, 42-55 ou Lc 2:42-55) e – por que não? – a Ave Maria. Esta oração, embora muito rezada pelos cristãos católicos, é esquecida pelos demais cristãos. No entanto, ela é, em sua primeira parte, totalmente evangélica! Esta primeira parte baseia-se, inteiramente, no Evangelho de Lucas (Lc 1,28.42 ou Lc 1:28.42): "Ave (= Alegra-te) Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre". Se esta parte é uma oração totalmente evangélica, como entender que muitos que se dizem cristãos e se dizem seguir o Evangelho, ignoram, completamente, esta passagem, que é "palavra de Deus"?... Ou se é evangélico, totalmente, ou não se é evangélico... Escolher o que seguir do Evangelho, e excluir aquilo com que não se concorda ou não se aceita, não é próprio de quem se diz cristão.

7. Maria como exemplo para o cristão

Maria deve ser imitada? Pelo Evangelho de Lucas, parece que sim, pois lá se encontra uma afirmativa que pode e deve ser aplicada a todo cristão: "E sua mãe conservava no coração todas essas coisas". A expressão "Essas coisas" refere-se aos acontecimentos da vida de Jesus. Portanto, Maria, nesse seu comportamento exemplar, deve ser imitada por todo aquele que se diz cristão e segue o Evangelho de Jesus Cristo: devemos guardar "no coração", isto é, colocar em prática, todas as palavras do Filho de Maria, todos os significados da vida de Jesus.

8. O Amor que lhe deve todo cristão

Amar Maria significa, então, para todo o cristão, amar seu Filho Jesus! Pois não há dúvidas de que Este A ame com todas as suas forças: pois sendo um Deus de Amor, não falharia no seu dever de amar aquela que lhe serviu de porta para sua encarnação, que o acompanhou desde de seu nascimento, por toda a sua vida pública, passando pelos seus sofrimentos e morte “de pé junto à cruz” (Jo 19,25 ou Jo 19:25), testemunhando sua ressurreição e a vinda do Espírito Santo, junto dos apóstolos, sendo presença discreta e marcante junto à Igreja nascente. E amar Jesus plenamente, portanto, não será possível, sem um amor igualmente explícito à sua Mãe, a quem Ele tanto Ama...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Relacionamento familiar inteligente

A propósito de difíceis relacionamentos intrafamiliares, ofereço uma proposta de reflexão, abaixo.


Supondo um relacionamento difícil, em que a filha é considerada pela mãe uma preguiçosa, uma pessoa egoísta, que só pensa nela, só “olha para o seu umbigo”, pergunta-se: qual seria o melhor comportamento ativo da mãe para que a filha mude, para que ela se transforme numa pessoa mais abnegada, mais prestativa, o contrário do que é agora, pelo menos aos olhos dessa mãe?

Uma possibilidade seria a mãe enfrentar a filha, chamando a atenção dela para essa sua falha de comportamento, e exortando-a a fazer algo para ajudar na casa, já que nada ou pouco tem feito. Nesta tentativa de corrigir a filha, a mãe usa palavras pouco delicadas, na verdade, até, ofensivas, insultuosas, mas sempre na intenção de levar a filha a converter-se, a mudar para melhor.

Que tipo de reação terá a filha, muito provavelmente? Ao se sentir atacada, ela reagirá contra-atacando: procurará atingir a mãe com acusações semelhantes, insultando-a, também, acerca de algum comportamento da mãe, que, para ela, é criticável e não parece ser o melhor. Vê-se, facilmente, que tal possibilidade escolhida pela mãe, na tentativa de corrigir a filha, tem consequências muito negativas, logo de imediato, visto que a filha reage com agressividade à agressividade inicial da mãe.

Não parece ser esta opção de comportamento da mãe, portanto, muito inteligente, visto que terá sido gerado um desentendimento mútuo, que poderá transformar-se em ataques e contra-ataques contínuos, numa discussão que tem tudo para provocar feridas emocionais em ambas, com consequências para o presente e o futuro do relacionamento amoroso que se espera de mãe e filha.

Uma outra possibilidade, esta já mais inteligente, seria a mãe, demonstrando respeito e carinho pela filha amada, e deixando de lado todo preconceito que tenha em relação ao seu comportamento negativo, propor, e não impor, que a filha, tendo em vista uma necessidade da mãe, ou da casa, tente ajudar em alguma tarefa doméstica. Uma proposta poderia ser como: "Hoje, quando você puder, dá para fazer isto pelo bem da casa?"; ou: "Hoje, estou precisando disso, quando você pode me ajudar?".

Que tipo de reação da filha pode ser prevista para uma tal proposta? Ora, não sendo nenhuma imposição, certamente não será um contra-ataque. Não tendo havido qualquer agressividade da mãe, mas tendo sido apenas uma proposta normal em um relacionamento doméstico, pouco provável será uma reação agressiva da filha.

A inteligência da proposta está em dois aspectos:

1) Foi dada à filha uma margem de flexibilidade: ela pode escolher o momento em que poderá dar a ajuda.

2) A mãe, em momento algum, chamou a atenção da filha para o fato de que ela a considera preguiçosa, ou que ajuda pouco em casa.

A mãe fez, simplesmente, uma proposta, muito natural, para que a filha se coloque à disposição, em algum momento de sua agenda, para contribuir com os afazeres domésticos.

Esta possibilidade de relacionamento inteligente, terá como efeito, muito provavelmente, e diferentemente do relacionamento agressivo e não-inteligente, uma reação semelhante, igualmente inteligente: a filha poderá definir o momento em que dará a ajuda, tendo em vista não só a necessidade da casa, mas, também, de suas próprias necessidades. Ela se sentirá desafiada a dar uma ajuda, demonstrando que não tem preguiça de ajudar em casa, e se sentirá, também, valorizada, pois a mãe reconhece nela capacidades, que, no entanto, precisam ser praticadas e aprimoradas. A filha vai entendendo que as contribuições nos afazeres domésticos são exercícios importantes para o crescimento pessoal da filha.

A opção da mãe por um relacionamento inteligente, na busca de corrigir algum comportamento negativo na filha, só tem aspectos positivos, visto que não provocará conflito, discussões, e nem xingamentos mútuos, ao contrário, terá como consequências o aumento na confiança mútua, na parceria entre mãe e filha, e, claro, no amor que as une.

(Uilso Aragono - abril de 2010)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Deus exterminou povos pagãos?

Muitos cristãos se questionam sobre os fatos que envolveram o extermínio de povos inteiros, quando da chegada do povo de Deus à terra prometida. A análise tem de ser feita com muito cuidado para não se aplicar, aos fatos ocorridos há milênios, os padrões ou categorias de pensamentos atuais, com a consequente injustiça analítica, e injustiça contra Deus!

Ora, Deus, certamente não exterminou povos, pessoas, gente. O que houve, factualmente, foram guerras entre povos e consequentes morticínios, que até hoje acontecem, infelizmente: gente matando gente; irmãos se matando... Aconteceram, realmente, guerras envolvendo o denominado povo de Deus contra povos ditos pagãos. E muitos destes foram derrotados, talvez dizimados, no confronto quando da chegada do povo hebreu à hoje conhecida Terra Santa. O que se pode e deve reconhecer é que, se o povo de Deus venceu algumas guerras, também perdeu outras, tendo sido, em uma ocasião, inclusive, praticamente dizimado, com os restos do povo sendo deportados, expulsos de sua terra. Percebe-se, já aqui, que o povo de Deus, tanto antigamente, como hoje, só vence alguma "guerra" se estiver unido a seu Deus, se estiver em aliança autêntica, garantida pela confiança e pela fé em seu Deus. Quando essa confiança era quebrada, pela dureza do coração do povo, não só este perdia guerras, com muitas vidas perdidas, como também era conquistado e dominado, em vez de conquistar e dominar.

Deus é sempre justo e muito mais “humano” do que possa imaginar a vã filosofia dos homens. Partindo-se, portanto, deste pressuposto indiscutível, Deus não pode ter condenado à morte eterna (isto é, ao inferno, à danação) aqueles povos vencidos pelo povo de Deus nas guerras santas então travadas na sua entrada e na permanência na terra prometida. Embora Cristo não tivesse ainda nascido, o Plano de Deus já levava em conta a futura obra redentora de seu Filho e já a aplicava à salvação das almas pagãs. A justiça e a misericórdia de Deus são muito maiores que as humanas. Não seriam condenados eternamente, embora vencidos e exterminados em função da ação guerreira do povo de Deus, quando Este os apoiava. Isto porque Deus, na ausência da fé nesses povos, na ausência dos valores cristãos – ainda não existentes – , aplicava a todos os pagãos mortos os critérios da bondade do coração, da moral natural e da consciência de cada um, de acordo com a vida vivida. Se existiram pessoas já consideradas santas, como os grandes heróis e heroínas bíblicos do povo de Deus, num tempo em que a Graça cristã ainda não estava, supostamente, valendo, pode-se perguntar se não teria sido possível a existência, também no meio do povo pagão, de pessoas nobres, de coração bondoso e candidatas à santidade cristã. E os critérios divinos no julgamento da vida de cada pagão morto estão, efetivamente e totalmente, fora da análise humana, não podendo ser Ele julgado por qualquer pessoa quanto à Sua capacidade de avaliar e julgar da maneira mais justa e correta a vida de suas criaturas.

Deus, portanto, não "exterminou" povos pagãos e os condenou ao inferno, pois Deus é um Deus de Amor, tanto hoje, quanto no passado e para todo o sempre. O que nos choca, hoje, não poderia ser de outro modo naquela época, pois a mentalidade da sociedade humana evolui, e Deus sabe disso e aplica uma espécie de pedagogia divina no processo educativo da humanidade: esta precisava ser conquistada, inicialmente por um povo escolhido, e depois pela Igreja - novo Povo de Deus! - para redenção e salvação definitivas de todos e cada um dos homens, tendo em vista, claro, as responsabilidades pessoais e a Misericórdia e a Justiça divinas.

(Uilso Aragono, março/2010)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Criança pirracenta: o que fazer?

Diante de uma criança pequena que está fazendo pirraça, muitos pais ficam perdidos. O que fazer? Eis uma reflexão e uma proposta.

A insegurança dos pais de filhos pequenos, e mesmo de adolescentes, nos dias de hoje é flagrante! Haveria necessidade de cursos de longa duração para que eles adquirissem as habilidades mais indicadas para terem sucesso na educação dos seus filhos. Infelizmente ninguém se prepara, em nossa sociedade, para o casamento, e nem para serem pais, o que é profundamente lamentável. Tais habilidades seriam as mais importantes para nossa convivência social, pois filhos bem educados resultarão em cidadãos mais centrados, mais felizes, e portanto, mais úteis à sociedade.

Tratando-se de educação infantil, pode-se perguntar se há algum tipo de orientação básica para o sucesso na educação. Embora não seja pedagogo nem psicólogo profissional, penso que tenho o direito de expressar meus pontos de vista, pois a escola da vida ensina muito a quem se dispõe a aprender. A experiência, bem vivida, iluminada pela busca constante do aprender, produz, em geral, bons resultados. Eis, então, minha orientação, a qual denomino "método do prêmio".

O método do prêmio, ou método da troca é, basicamente, relacionar-se de forma inteligente com a criança. A cada comportamento positivo da criança, um prêmio; a cada comportamento negativo, um castigo, ou a perda de um prêmio. Se a criança está fazendo mal-criação, como se diz, e gritanto e esperneando, os pais podem e devem usar este método.

Mas antes que se faça confusão, o método da troca não é um método de chantagem, como alguns podem precipitadamente pensar. A diferença entre a troca e a chantagem baseia-se no fato de que no método da troca, o bem está na criança: propõe-se algo em troca do bem da criança; já na chantagem, o bem é de quem a propõe... A chantagem visa a benefícios próprios e escusos, com prejuízos para o outro. A troca visa exclusivamente ao bem do outro, sem qualquer prejuízo para ele.

Voltando à situação típica de criança "pirracenta", duas possibilidades de relacionamento podem ser identificadas. (Eliminando, naturalmente aquela ligada à violência física contra a criança.)

A primeira possibilidade caracteriza um relacionamento conflituoso, ineficiente, em que os pais, não desejando enfrentar a criança, submetem-se a ela, fazendo suas vontades. Este relacionamento não é muito inteligente na medida em que, se persistir, vai produzir uma criança mimada, egoísta, e um futuro adolescente muito problemático.

Pode-se perguntar sobre as consequências imediatas no relacionamento familiar. Ora, a criança, não sendo "enfrentada" pelos pais, sente-se, sem ter qualquer consciência disto, com poder sobre eles. O choro ou a pirraça passa a ser causa de realização de qualquer vontade ou capricho da criança. A partir do momento em que este relacionamento fica firmado, a convivência familiar torna-se muito complicada, tendo consequências sérias sobre o relacionamento dos pais. Estes vão se sentir perdidos, e poderão acusar-se mutuamente diante da impotência criada no relacionamento com a criança.

A segunda possibilidade caracterizará um relacionamento inteligente, amoroso, em que os pais agirão com eficácia e amor, na medida em que usarem o método do prêmio ou da troca. Diante da criança pirracenta, os pais haverão de comportar-se de maneira amorosa, mas firme. Se a criança insistir em chorar, em nome do amor e da educação da criança, esta deve ser afastada dos demais familiares, especialmente se ocorre em público, em companhia da mãe ou do pai, para que se acalme e não tenha plateia, o que incentiva a criança a agir daquela forma. Uma vez acalmada, deve-se propor à criança uma troca: ela deixa a pirraça para ganhar o direito de, por exemplo, assistir, depois, ao seu programa preferido (prêmio); caso contrário, ela não terá esse direito (castigo).

O que se pode esperar de uma criança, que age de forma meio instintiva, nada premeditada, diante de uma proposta de troca como dito acima? Ela, certamente, se surpreenderá com a possibilidade de não poder usufruir de um direito (ver o programa) que ela julgava ser um direito "líquido e certo". Ao tomar consciência de que poderá perder o direito, ela haverá de se comportar melhor. E os pais terão ganho um ponto importante no "embate", no enfrentamento com a criança, embora quem terá mais a ganhar será a própria criança, por ter pais que a eduquem, de fato, e com amor.

O método da troca deve ser continuamente utilizado no relacionamento inteligente com os filhos. Pois os direitos dos filhos devem ser "conquistados" por eles. Não são, e não deveriam ser, direitos "líquidos e certos" por antecipação, pelo simples fato de serem filhos. Esses direitos são o tesouro de "prêmios" que os pais trocarão com os filhos com vistas a obter comportamentos mais adequados e filhos mais bem educados.
(Uilso Aragono, 21/fev/2010)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Segurança contra acidentes na família e na vida

Refletir sobre a "consciência segura", que envolve aspectos de segurança contra acidentes, muitos deles fatais, na família, no trânsito, no trabalho, etc., é a proposta do artigo abaixo.

Com tantas mortes acontecendo por acidentes previsíveis, pergunta-se: onde está nossa consciência sobre segurança? Uma adolescente morre por ter usado uma chapinha alisadora após sair do banho, supostamente molhada. Uma outra jovem se corta toda por ter subido em um vaso sanitário de um banheiro público e este ter-se quebrado. Um outro senhor morre por ter entrado em um elevador, após ter puxado sua porta e esta ter aberto, sendo que o elevador não estava no andar... Um garoto, usando uma barra de ferro, tenta liberar sua pipa, que ficara agarrada em uma rede elétrica de alta tensão, e recebe uma descarga elétrica fatal... Os acidentes, fatais ou quase, são presença constante nos noticiários de jornais diários. São acidentes ocorrentes no trânsito, dentro de casa, nas indústrias, nas ruas, nas escolas, enfim, em todo lugar.

E todos esses acidentes poderiam ter sido evitados se houvesse mais consciência de segurança em nossa sociedade; se as pessoas tivessem sido, previamente, confrontadas com tais possibilidades e se tornassem advertidas sobre como evitá-las. Acidentes acontecem... mas podem, perfeitamente, ser evitados. Assim como crescemos todos, em termos de consciência ecológica, na defesa de um meio ambiente sustentável, temos, agora, também, que nos preocuparmos com um “ambiente” mais seguro para todos nós, especialmente para aqueles seres mais frágeis: nossas crianças, nossos jovens, nossos idosos.

Assim como têm sido tratados na Escola temas relativos à consciência ecológica, é imperioso que, adicionalmente, sejam tratados temas ligados à questão ampla da segurança contra acidentes nos diversos ambientes da vida social. Isto permitirá que as futuras gerações adquiram, paulatinamente, uma consciência mais advertida contra os acidentes possíveis de serem evitados. A “atitude segura”, isto é, uma postura advertida diante de situações potencialmente perigosas, mesmo que aparentemente seguras, é o fundamento de uma vida mais segura. Mas muitos outros aspectos complementares devem ser discutidos e enfrentados na caminhada em direção a uma consciência mais “segura”.

Duas dimensões distintas devem ser abordadas para o alcance de uma vida mais segura para todo cidadão: a dimensão pessoal e a dimensão dos produtos e dos serviços. A dimensão pessoal terá de tratar, inevitavelmente, dos dramas relacionados aos acidentes, ligados à identificação de suas possíveis causas; o objetivo seria o de formar uma consciência advertida diante das múltiplas situações perigosas e passíveis de acidentes. A dimensão ligada aos produtos e aos serviços terá de levar os engenheiros (produtos) e os demais profissionais (variados serviços) a atuarem de tal forma a conceberem produtos e serviços os mais seguros possíveis.

Como exemplos de produtos mais seguros, com base nos acidentes acima relatados, podem ser citados: equipamentos elétricos (como a chapinha) com elevado nível de segurança, à prova de choques elétricos, mesmo se mal ou inadequadamente utilizados; vasos sanitários com maior coeficiente de segurança (mais fortes), capazes de aguentar o peso de uma pessoa adulta, mesmo em pé sobre o produto, pois esta situação, embora irregular, não pode constituir, para o infrator, uma pena de condenação à morte ou algo similar.

Com este artigo inicial estou propondo uma abordagem mais séria, mais objetiva, sobre os acidentes e suas condições inseguras e as possíveis soluções para neutralizá-los. Proposta que passa pela introdução desse tema nos níveis de ensino fundamental e médio – com vistas ao desenvolvimento precoce de uma “consciência segura” –, bem como pela disseminação de leis e normas técnicas mais exigentes a serem aplicadas a produtos e serviços disponibilizados em nossa sociedade.

(Uilso Aragono: janeiro de 2010)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal Iluminante

Neste tempo natalino, somos envolvidos por uma vontade inexplicável, uma quase-necessidade, de sempre reinterpretar os múltiplos significados do Natal. Abaixo uma nova interpretação que partilho com os leitores: um Natal que nos ilumina e nos torna iluminantes!

Era uma vez um menino que nasceu numa gruta onde só ele era a luz. Mas seus pais refletiam essa luz como os espelhos mais polidos. E o ambiente, embora muito pobre, na verdade, miserável, transformava-se num aconchegante lar. Porque o que faz um lar não é a presença de coisas bonitas, mas a presença de pessoas capazes de ver beleza nas coisas mais simples; capazes de, mesmo sem entender, acolher os planos do Senhor da vida, como faziam os pais desse menino.

Essa Luz cresceu em potência e alcançou os lugares mais distantes, os corações mais tenebrosos, as vidas mais frias, dando-lhes luminosidade e calor.

E cada pessoa atingida por essa Luz do menino da gruta tornava-se, ela própria, também luz para iluminar o mundo. Assim as pessoas passaram a enxergar, nos ambientes agora mais claros, porque iluminados pela Luz do menino da gruta, rostos mais bonitos, ambientes mais acolhedores, e vida com mais esplendor. A felicidade, antes uma ideia distante, por poucos alcançada, agora tornava-se mais visível, pela Luz do menino da gruta, e já era alcançada por muito mais gente!

Muita coisa mudou ao receber a luz do menino-luz. Sob a luminosidade desse menino, que crescia em “estatura e sabedoria, diante de Deus e dos homens”, as pessoas também cresciam na compreensão da Fonte de toda Luz, de onde emanava a própria luz do menino. E essa nova compreensão transformava as relações: de ódio para perdão e acolhimento; de inveja para alegria pela felicidade do outro; de exploração para solidariedade e fraternidade.

As pessoas descobriram que eram como que cegas antes do aparecimento daquela luz na gruta de Belém. E que agora estavam enxergando um mundo mais bonito, mais gostoso de se viver, com valores renovados. Não que não existissem tais valores, mas estavam na escuridão da ignorância das realidades luminosas da vida plena. Com a luz do menino da gruta, tudo foi renovado. Uma nova criação surgiu, sem que nada, objetivamente mudasse. Mas mudavam os corações, agora iluminados, agora iluminantes, agora transformados em corações mais sensíveis, capazes de ver nos outros, verdadeiros irmãos, verdadeiros amigos, verdadeiros filhos de um mesmo Pai.

Feliz Natal!
(Uilso Aragono, dezembro de 2009)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LUZ E FORÇA SÃO ESSENCIAIS

Escrevi o artigo abaixo a convite do Jornal A Gazeta, publicado em 17/nov/09.

Hoje, com a costumeira, contínua e confiável iluminação artificial das cidades, todo evento de falta de luz é apelidado de Apagão. Isto por si só já ressalta a importância de um sistema elétrico costumeiro e contínuo e justifica as expectativas de que tal sistema seja, de fato, permanentemente disponível e totalmente confiável. No entanto um sistema de energia elétrica destinado a iluminar e a ser o motor de um país é um gigante extremamente complexo, que deve ser caracterizado por equipamentos de alta tecnologia e alta robustez, supondo investimentos em massa para expansão e manutenção contínuas. E, como qualquer sistema tecnológico, também está sujeito a defeitos, falhas e acidentes. Por outro lado, quanto mais qualidade e eficácia de equipamentos e de manutenção, tanto mais afastados os citados problemas e os decorrentes riscos de apagões.

Fazendo uma comparação, a título de esclarecimento aos leigos, as linhas de transmissão (LTs) podem ser comparadas a rodovias para o tráfego de automóveis. Assim como existem autoestradas consideradas de grande fluxo, assim também existem as chamadas linhas-tronco em que o fluxo de energia é enorme. Da mesma maneira, portanto, que a interrupção do fluxo em uma autoestrada-chave provocará um grande transtorno ao país, a interrupção de uma linha-tronco (como são as que ligam Itaipu a São Paulo) também causará semelhante transtorno, em termos de falta de energia.

Alguns criticam o fato de o problema, neste último apagão, não ter sido “isolado”, de tal forma a não comprometer o resto do sistema. Ora, um tal isolamento do problema só é possível se ocorrer no “meio” do sistema; “isolar” uma linha-tronco, como a de Itaipu, situada numa extremidade do sistema, significa desligá-la e impedir, neste caso, a entrada de um grande bloco de energia no centro consumidor, com suas consequências inevitáveis.

Se foi raio seguido de curto-circuito em um isolador de uma LT de Itaipu, ou um curto-circuito de natureza acidental, por manutenção insuficiente, ou por falha humana, não se pode afirmar sem uma perícia técnica. Mas supondo o desligamento automático de uma das três LTs em corrente-alternada, as outras duas foram desligadas por consequência. Surge a suspeita de estarem em seus limites, o que deve ser bem avaliado pelos técnicos, sob pena de tal episódio poder repetir-se.

Pode-se concluir por uma posição de respeito e consideração aos órgãos técnicos responsáveis pela situação de continuidade desse complexo e desafiador sistema elétrico brasileiro, bem como por uma posição de cobrança de contínuos e maiores investimentos em tecnologia de inteligência de rede associada a equipamentos de ponta, e em manutenção séria e contínua sobre tais equipamentos, pois luz e força são essenciais. Somente assim as expectativas de todos estarão sendo satisfeitas em termos de serviços de energia elétrica confiáveis e sempre disponíveis.

Prof. Wilson Aragão Filho; Depto Eng.Elétrica da UFES.

Quem sou eu

Minha foto
Sou formado em Engenharia Elétrica, com mestrado e doutorado na Univ. Federal de Santa Catarina e Prof. Titular, aposentado, na Univ. Fed. do Espírito Santo (UFES). Tenho formação, também, em Filosofia, Teologia, Educação, Língua Internacional (Esperanto), Oratória e comunicação. Meu currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4787185A8

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