quinta-feira, 31 de março de 2022

A IMPORTÂNCIA DE MARIA NA VIDA DO CRISTÃO

 

Muitos podem achar que Maria, a Mãe de Jesus, não tenha tanta importância na vida do cristão. No entanto, um olhar mais aprofundado nos revela o quão relevante é, para um cristão, imitar Maria, aquela que disse sim ao Anjo do Senhor e tornou-se a Mãe do nosso Salvador, Jesus Cristo. Além disso, tornou-se sua primeira discípula, nossa Mãe aos pés da cruz, nossa mediadora entre Cristo e o Pai e a Esposa castíssima do Espírito Santo.

QUEM É MARIA?

Maria é uma criatura de Deus, como nós o somos. No entanto, como diferencial, foi ela predestinada a ser a Mãe do Salvador e, por isso, teve de ser preservada da mancha do pecado original, que a todos nos atinge. E o foi em “atenção antecipada aos méritos de Cristo”, como nos ensina um santo da Igreja. Foi uma mulher humilíssima: humilde e silenciosa, ensinando e aprendendo na convivência com Jesus e José. Sendo Mãe de Jesus, tornou-se, também, a Mãe de Deus, visto que Jesus é o Deus-Filho.

POR QUE SERMOS DEVOTOS DE MARIA? *

Maria está mais perto de nós do que Jesus... afinal, este é o Homem-Deus, e nós somos simples criaturas humanas, como Maria. Jesus, embora mediador entre Deus e os homens, ainda é Deus e Senhor! E nós, muito indignos, pequenos, pecadores, para nos aproximarmos da grandeza de Jesus.

Como ninguém se aproxima de um rei, neste mundo, senão após falar com um dos seus ministros, assim, também, para falarmos com Jesus – em respeito à sua altíssima dignidade divina – devemos buscar um dos seus ministros (representantes dEle): e eis que Maria é essa ministra de Jesus, que nos recebe e nos conduz a Ele; é nossa advogada diante dEle, numa linguagem mais moderna.

Devemos ser devotos, dedicados a Maria, seus imitadores, porque queremos fazer a vontade de Deus; porque queremos realizar em nossa vida Palavra de Deus: a Bíblia Sagrada! Portanto, se lá está escrito que Maria é “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,42-43) e “(...) doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (palavras do canto do Magnificat, entoado por Maria sob inspiração do Espírito Santo; Lc 1,48) – não deveríamos nós, cristãos, buscar realizar, vivenciar essas palavras bíblicas e proféticas?

Maria realiza plenamente a vontade de Deus: “Bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 11, 27-28). Não devemos também nós, buscando imitá-la, realizar plenamente a vontade divina? A devoção a Maria é um compromisso de imitação, nas dimensões interior e exterior, das virtudes de nossa Senhora.  E por ela ser Mãe de Jesus, consegue-nos tudo diante dEle!

Recorrendo a Maria, agradamos a Jesus, que a ama muitíssimo – com amor perfeito! – e deseja vê-la amada por aqueles que O amam.

Maria gerou Jesus para o mundo e deseja gerá-lo novamente no nosso coração.

Maria é parte essencial da Redenção: Deus planejou assim; Sua obra continua.

Maria deseja ser nossa intercessora (ou medianeira), nossa advogada junto à Trindade Santa.

Maria, “cheia de graça”, quer partilhar o Espírito Santo com seus filhos.

Maria, por amor a Jesus, quer assumir sua maternidade espiritual em relação a nós. Ela nos ama como Jesus!

O próprio Jesus se submeteu a Maria durante 30 anos de Sua vida: por que nós não deveríamos fazer igualmente? (* Texto inspirado no livro de S. Luís Maria Grignion de Monfort: Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.)

INTERCESSORA JUNTO A JESUS

Jesus é a ponte (o pontífice) entre Deus e os homens. E Maria quer ser a guia dos peregrinos que desejam chegar a essa ponte! Ela pode ser comparada a uma lanterna que ilumina o caminho daqueles que desejam chegar perto de Jesus. Pode ser comparada a uma estrada bem pavimentada, bem iluminada, e bem sinalizada, por onde o carro de nossa vida pode rodar sem problemas para chegar em segurança à Ponte.

Ao contrário, sem Maria, esse carro de nossa vida estará rodando sobre uma estrada esburacada, mal iluminada e mal sinalizada, oferecendo-nos todas as dificuldades de chegarmos em segurança à Ponte, que é o Cristo!

COMO RESPONDERMOS AOS IRMÃOS EVANGÉLICOS?

Nós, católicos, honramos e veneramos (venerar = respeito elevado) nossa Senhora, Maria, a Mãe de Jesus, como este espera que o façamos. Nenhum amigo pode dizer que nos ama se não respeitar e não tiver consideração por nossa própria mãe. Desrespeitar nossa mãe é como nos desrespeitar a nós próprios. Esse raciocínio se aplica igualmente a Jesus e à sua Mãe Maria.

Quanto às imagens que representam Maria, a Mãe de Jesus, não estão proibidas pelo capítulo 20 do livro do Êxodo, como querem fazer crer alguns irmãos crentes! Pois nesse texto (Ex 20, 4-5), Deus proíbe a adoração de ídolos por meio de imagens. Ora, a imagem de Maria não é um ídolo, mas uma lembrança visual – como bem necessita a experiência humana! – que nos ajuda a contemplar, a ver com os olhos carnais aquilo que nossa fé enxerga pelo espírito. É um consolo humano muito aceitável. Orar diante de imagens (estatuetas) de Maria, de Jesus, ou dos santos é uma prática muito humana, pois não somos anjos. Precisamos ver, tocar e até beijar, para termos uma experiência – mesmo religiosa! – mais profunda e verdadeira. E se o católico se ajoelha diante de uma imagem da Santíssima Virgem (ou de qualquer outro santo) não é porque ela seja Deus, mas porque representa Deus diante de nossos olhos, nos aproxima de Deus, e porque ela está tão próxima dEle que não há como não se ajoelhar diante dEle!

Uma igreja sem imagens não nos estimula (humanamente falando) ao ato de oração, de contemplação de Deus: é um ambiente frio, sem o calor humano tão necessário às pessoas. O espírito humano necessita desse consolo. E Deus nunca proibiu – de forma absoluta! – a construção de imagens (estatuetas). Ao contrário, Ele até mandou construir imagens sagradas (os querubins) para aumentar a fé do povo: pois Ele não quer um culto espiritualizado e dirigido diretamente ao invisível. Ele conhece nossa psicologia! (Ex 25, 17-22; 1Rs 6,23-29; Nm 21, 4-9, etc.).

COMO SERMOS DEVOTOS DE MARIA

Reconhecendo-a como nossa Mãe; rezando o Terço ou o Rosário (que é igual a três Terços) frequentemente, repetindo jaculatórias e orações marianas como a Ave-Maria (Lc 1, 28.42), a Salve Rainha, o Angelus, o Magnificat, etc. Buscar conhecer, com boa profundidade, alguma invocação de nossa Senhora: Nossa Senhora da Penha; devoção ao Imaculado Coração de Maria; devoção à Medalha Milagrosa (N. Senhora da Graças); Nossa Senhora Aparecida; etc.

Buscar praticar na vida o teor de algumas “mensagens” marianas transmitidas por videntes como em Fátima (Portugal), Lourdes (França), Medjugorje (Croácia), etc.: rezar o Terço diariamente, fazer penitências, jejuns e praticar a caridade ao próximo, especialmente aos mais necessitados.

Viver os sacramentos, especialmente a Eucaristia – o Corpo e o Sangue de Cristo, nosso Senhor! E Maria é como que um Sacrário vivo, pois sempre nos dá Jesus!

CONCLUSÃO

Aprofundar o significado de Maria na nossa vida nos levará a compreender – iluminados pelo Espírito Santo – que tanto mais e melhor estaremos amando a Jesus, quanto mais e melhor venerarmos e amarmos sua Mãe santíssima. O amor a Jesus não pode ser completo se não incluir o carinhoso e filial amor àquela que foi serva fiel e silenciosa no cumprimento dos desígnios de Deus para a encarnação do Verbo de Deus, seu Filho Amado.

Ter em conta a presença equilibrada de Maria na nossa espiritualidade é algo que só tem a contribuir para nossa mais perfeita santificação e nossa verdadeira felicidade já aqui na Terra e, depois, lá no Céu.

Uilso Aragono. (Março de 2022)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E DA RECONCILIAÇÃO

 O sacramento da Confissão é hoje mais bem denominado sacramento da Penitência (ou da Conversão ou da Reconciliação). Neste texto vamos refletir um pouco sobre esse importantíssimo sacramento da Igreja Católica.

1. INTRODUÇÃO

O sacramento da Penitência (ou da Reconciliação) é um dos sete sacramentos da Igreja Católica. Os demais são: Batismo, Confirmação (ou Crisma), Eucaristia, Ordem, Matrimônio e Unção dos enfermos. É um sacramento de cura, como também o é o da Unção dos enfermos. Veremos que o sacramento da Penitência perdoa, reconcilia e santifica aquele que se converte do pecado à vida da graça. E quem precisa de perdão, de reconciliação? – Aquele que é inclinado ao pecado, como todos nós, que nos reconhecemos ‘pecadores’... mas que podemos nos tornar ‘santos’ depois de uma boa experiência de conversão e de penitência através do sacramento da Penitência.

2. O QUE É O PECADO?

O pecado é tudo o que provoca ruptura no relacionamento entre o homem e Deus e com os irmãos. Opõe-se à virtude, que nos leva à santidade, enquanto aquele nos afasta de Deus... Mas, ensina-nos a Igreja que há três condições para que alguém, verdadeiramente, cometa um pecado: a matéria (do pecado), a consciência (de que é pecado) e a liberdade (para cometê-lo). Portanto, não é tão fácil que se cometa um pecado, não? Esta é uma boa notícia!

O cristão tem sua vida de graça (vida em Cristo) como que num vaso de argila. A quebra desse vaso se compara ao cometimento de um pecado, que destrói a vida da graça pelo derramamento de seu conteúdo (a graça). O vaso é de argila, porque somos inclinados, pelas nossas fraqueza e natureza humanas, ao pecado. Tendo sido quebrado o vaso de nossa vida de graça, há que se buscar consertá-lo, reconstruí-lo: é o sacramento da Reconciliação, da Penitência!

Uma oração poderosa e que sempre é rezada na Missa vale a pena ser lembrada aqui. É o “confiteor” (do latim: eu confesso...): Confesso a Deus, todo poderoso, e a vós, irmãos e irmãs, que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa. E peço à Virgem Maria, aos anjos e santos, e a vós irmãos e irmãs, que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor.

3. CLASSIFICAÇÃO E EXEMPLO DE PECADO

Os pecados podem ser graves (ou mortais) e leves (ou veniais). Nosso vaso se quebra nos pecados mortais e se racha nos pecados veniais. Um pecado mortal é aquele que nos priva totalmente da graça de Deus (que foi derramada na quebra do vaso e se perdeu). E é muito perigoso estarmos privados da graça de Deus, pois sem ela nada podemos, nada somos; estaremos à mercê de novos pecados graves. Essa situação exige do cristão a busca imediata da reconciliação com Deus. E isto só é possível pelo sacramento da Reconciliação, da Penitência, da Conversão.

Um exemplo fácil de pecado mortal é quando alguém tem a consciência de que matar um irmão (matéria grave pois está proibido pela Lei de Deus) é pecado e ele, com toda a liberdade, sem qualquer coação, decide eliminar o outro em seu próprio benefício. Como houve matéria grave, consciência do pecado e liberdade, houve um verdadeiro pecado mortal! Em geral, os dez mandamentos contêm matéria de pecado grave (mortal) se forem praticados com consciência e liberdade.

Os pecados veniais (leves) já são comparados ao vaso que se racha, pois é mais facilmente recomposto: basta, talvez, uma cola, um remendo. E o conteúdo (a graça) não se perde totalmente. Nesses casos, de pecados leves, o cristão pode mais facilmente encontrar o perdão de Deus e a sua reconciliação com Ele e com os irmãos. Isto pode acontecer, com verdadeiro arrependimento e contrição (dor por tê-lo cometido), em um momento de oração diante de Deus. E a Igreja ensina que o sacramento da Eucaristia (não havendo pecado mortal) nos perdoa desses pecados veniais já previamente identificados, com contrição e arrependimento.

4. CONSEQUÊNCIAS DO PECADO

O pecado cria o estado de desgraça para o cristão. Palavra considerada por muitos como muito feia, é de fato assim: porque o cristão fica privado, total ou parcialmente, da graça de Deus, o que pode levá-lo a uma situação de cometimento de novos pecados, já que a graça deixa de protegê-lo contra as tentações do Maligno. O desgraçado é aquele cristão que está em situação de pecado e não totalmente favorecido pela graça divina. Por isso é um termo feio e indesejado por nós, cristãos.

Sabemos que Deus tem um plano de amor para cada um de nós, embora nem sempre tenhamos consciência disso. E, às vezes, por conta de muitos problemas e situações negativas da vida, alguns não acreditam nesse plano de Deus para nós. Mas, como afirma nosso Salvador, Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente”, e é esse o plano de Amor de Deus por nós – ter uma vida plena... no entanto, não necessariamente das coisas desta vida humana, terrena, mas, sim, plena da graça de Deus!

Sem a graça divina, o pecador fica doente espiritual, física e mentalmente, cheio de dores estranhas, infeliz, e, lá no fundo, com dor na consciência pesada. Diante de tal quadro, é conveniente que o pecador sinta contrição, tristeza, arrependimento dos pecados cometidos e busque a reconciliação pelo sacramento da Penitência. Que é, aliás, essencial para que o fiel possa estar em condições de receber o Cristo eucarístico!

5. O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA

O sacramento da Penitência é a aplicação da misericórdia de Deus em relação àquele que pecou e que está arrependido, contrito e deseja voltar à graça divina. A Igreja, sob a palavra de Cristo, tem a chave da absolvição dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, esses lhe serão perdoados; a quem não os perdoar, esses lhes serão retidos”. E a fórmula que o sacerdote utiliza na expressão do perdão dos pecados do pecador arrependido é esta: “Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

O sacramento da Penitência (ou da Reconciliação) perdoa os pecados do cristão arrependido e lhe propõe uma penitência: a reparação dos efeitos negativos dos pecados perdoados. Porque embora perdoados, há que se fazer a reparação desses efeitos negativos, que se espalham em torno daquele que pecou. É como, simbolicamente, aquele vidro de janela quebrado pela criança, que o pai pede desculpas e é desculpado; mas que  deverá assumir a responsabilidade por reparar, consertar o vidro quebrado. É essa reparação que a Igreja denomina “pena temporal” (ou penalidade temporal), isto é, a penitência que o padre aplica ao penitente para que, além de estar perdoado, esteja livre de toda a culpa. Sem a penitência, o sacramento não estará completo. Portanto, não basta o perdão durante o sacramento da Reconciliação, mas é importante a prática da penitência recomendada pelo confessor.

A penitência pode se apresentar – como no tempo da Quaresma – sob três formas básicas: o jejum (ou abstinência), a oração e a esmola, correspondendo às três dimensões das relações humanas, respectivamente, dimensões interior (conversão), vertical (relação com Deus) e horizontal (reconciliação com os outros).

7. A BUSCA DA SANTIDADE

Embora a sacramento da Reconciliação (diante do sacerdote, confissão auricular) seja recomendado para os pecados mortais, pode-se indicá-lo também para os veniais. Para essa situação, o confessante buscará o perdão de seus pecados como exercício de humildade – de quem se reconhece inclinado ao pecado e necessitado da graça divina – e como expressão de fé nAquele que nos quer perdoar sempre e nos dar a Sua graça. E a confissão regular (semanal, mensal ou com alguma frequência) nos ajuda a formar a reta consciência, a lutar contra nossas más tendências e inclinações, a ver-nos curados por Cristo, a progredir na vida do Espírito e a nos aproximarmos mais do objetivo maior de sermos santos e misericordiosos como Ele é.

Como diz S. Agostinho, “Ama e faze o que quiseres”. Essa observação nos orienta a amarmos sempre, no verdadeiro amor cristão. Se assim agirmos, buscando “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, como ensina Jesus, poderemos fazer qualquer coisa, pois nada de mal faremos já que o amor só faz o bem! Enquanto estivermos numa vida de amor, teremos dificuldade de pecar! É o amor a Deus e o amor que vem de Deus (Sua graça) que têm o poder de nos proteger contra os pecados graves. E quem ama exerce as virtudes cristãs e atende à vocação (ao chamado) de Deus.

8. CONCLUSÃO

O sacramento da Penitência ou da Reconciliação é um sacramento que não deve ser esquecido pelo cristão, ao contrário, deve ser buscado com certa regularidade ao longo do ano para que a pessoa se sinta feliz, abençoada, mais protegida contra os ataques malignos, e mais capaz de amar, porque cheia da graça de Deus. E se é, sobretudo, indicado para os fiéis que tenham cometido pecados mortais, é, também, muito recomendado para os que queiram trilhar o caminho da busca contínua da santidade, pois nos garante a graça divina e nos fortalece contra nossas más inclinações.

Uilso Aragono. (fev. de 2022.)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

VOCAÇÃO MATRIMONIAL: O QUE É?

 Vamos refletir sobre a vocação ao matrimônio (matrimônio = casamento religioso). Sobre esse estado de vida que é fundamental para a Igreja e para a sociedade. Mas, será que o casamento religioso é, realmente, uma vocação, um chamado? Ou é simplesmente algo que acontece na nossa vida dependendo da sorte e das circunstâncias? Não! Não acontece por pura sorte, mas depende de nossa abertura para Deus e de nossa disposição de que Ele seja o Senhor de nossa vida! De que a vontade dEle aconteça em nossa vida! Também dependerá de nossa personalidade de nossa vocação: nem todos serão, de fato, chamados a ser pais e mães. Sabemos que há muitas pessoas que não se acham nascidos para serem pais, ou para viver casados...

 

1. O Matrimônio Cristão

O matrimônio é uma instituição divina (Mt 19,5-6). E Jesus nos diz que é indissolúvel, que é para sempre! Mas, para ser válido – um verdadeiro matrimônio – ensina-nos a Igreja Católica que esse sacramento deve satisfazer a alguns requisitos: amor, liberdade, conhecimento e sinceridade, além de ocorrer, normalmente, em uma comunidade de cristãos.

O matrimônio também simboliza, como nos ensina S. Paulo, a união de Cristo com a Igreja; expressando o amor de Deus pela humanidade. Assim como Cristo amou e ama a Igreja e espera a sua correspondência, também os esposos devem amar-se mutuamente! Assim como o amor de Cristo pela Igreja gera muitos filhos espirituais, também devem os esposos gerar filhos para Deus!

E a que se destina o matrimônio? Não somente à geração da prole, como, no passado se enfatizava. Mas também destina-se ao bem dos cônjuges, à felicidade do casal e de cada um dos membros da família constituída.

2. O Sacramento do Matrimônio na Prática

Na prática, o matrimônio deve ser um caminhar juntos na sociedade e na solidariedade; um caminhar juntos na fé, e contando com a graça de Deus associada ao sacramento vivenciado. É um caminhar juntos “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te por todos os dias de minha vida”, como reza a fórmula tradicional da promessa do matrimônio católico que cada cônjuge declara em alto e bom som (mesmo que, na maioria das vezes – infelizmente! – apenas repitam as palavras ditadas pelo presidente da celebração do sacramento).

Espera-se, ainda, que o sacramento do matrimônio seja um caminhar juntos na educação cristã e social dos filhos, além de um caminhar juntos para testemunhar o que o sacramento simboliza: o amor de Cristo pela Igreja, e vice-versa.

3. Como ter Certeza dessa Vocação?

Sendo um casamento religioso, o matrimônio deve ser fruto da vivência dessa dimensão da vida: estando unidos a Deus pela oração e pela vivência dos sacramentos, pedimos a Ele as luzes sobre nossa vocação. O que Ele espera de cada um de nós? E a vida de oração abrirá as janelas de nossa existência para a entrada dessas luzes. E Ele nos dará sabedoria para nos conhecermos a nós mesmos: nossas inclinações, nossas fraquezas e capacidades, nossas virtudes e nossos pecados; e nos mostrará o nosso par ideal: o cônjuge (a vocação matrimonial), a Igreja (a vocação religiosa), ou o celibato não religioso...

4. Como Vivenciar o Sacramento do Matrimônio

A vivência do sacramento do matrimônio se dá sob vários aspectos: na oração pessoal, a dois e em família; no afeto diário, como nos tempos do namoro; no respeito mútuo, conforme a promessa do dia do casamento (“... amando-te e respeitando-te...); no diálogo verdadeiro e amoroso (não como falam os bêbados a verdade...); na humildade do pedir perdão e do reconhecer-se também culpado pela briga, pelo desentendimento; na caridade... pois só o amor constrói; na paciência mútua (que grande e desconsiderada virtude!); e na fidelidade em relação ao cônjuge, a Deus e à sociedade/comunidade. E a isso tudo se pode e deve-se acrescentar a vivência dos demais sacramentos, especialmente a fração do pão (a ceia eucarística, a missa).

5. Conclusão

A vocação ao matrimônio (ou casamento religioso) supõe um chamado de Deus que deve ser identificado por cada um de nós na medida de nossa união com Deus na oração. Somente ouvindo o Senhor é que poderemos discernir nossa vocação. Precisamos estar conscientes de que o sacramento do matrimônio é um grande desafio à vida do casal cristão, mas que pode ser vivenciado com harmonia se nos abrirmos à Graça santificante de Deus. Esta graça ilumina nossa consciência e nos ajuda a orientar nossa conduta de acordo com o que seja melhor para o nosso matrimônio. E a vivência harmoniosa do sacramento do matrimônio é um importante testemunho do amor de Cristo à sua Igreja e à humanidade.

Uilso Aragono. (jan. de 2022).

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

FIDELIDADE E FELICIDADE NA VIDA E NA FAMÍLIA

 Tratamos, neste artigo, de um tema muito importante na nossa vida, tanto pessoal como social e familiar. É a questão da fidelidade à nossa vocação e da busca da felicidade, que marca a vida de todos nós. Quem não quer ser feliz? Mas, o que é a felicidade? E o que é a fidelidade? Ser fiel é importante? Fiel a quem? Vamos refletir sobre tais questões. É tema primeiramente oferecido pelo então Papa João Paulo II, através de suas catequeses.

 1.      Fidelidade e traição

Fidelidade é um termo que advém do latim “fides”, que quer dizer “fé”, “confiança”. Ter fidelidade a algo ou a alguém é ser fiel, é ter fé ou confiança nesse algo ou nesse alguém. É uma atitude ou postura muito comum no relacionamento humano, uma vez que todos nós demonstraremos, sempre, nossa fé, nossa fidelidade em muitos momentos da vida. Quando perguntamos sobre o nome, a profissão ou sobre a família de alguém, nunca pedimos provas a respeito. – Sempre acreditamos e colocamos fé no que diz a pessoa. É uma atitude de fé, de confiança nas pessoas. No passado, essa atitude – diferentemente de hoje, em que costumamos apresentar documentos para provar nossa afirmação – era muito mais comum, e uma palavra dada era suficiente para que fosse considerada fiel. São Paulo, por exemplo, em certa ocasião, tendo sido preso na Judeia, ao informar ao Tribuno romano que era um cidadão romano, aquele como que tremeu nas bases... Acreditou imediatamente e não colocou em dúvida a afirmação do Apóstolo. Teve fé em suas palavras. E tremeu porque um cidadão romano tinha direito a ser tratado de forma especial, e não como se costumava tratar um não romano.

Não ser fiel é ser um traidor. A traição é, portanto, o oposto da atitude de fidelidade. É a desconsideração do seguimento de um compromisso já acertado.

Há muitos exemplos sobre a atitude de fidelidade. Somos fieis, ou não, em vários ambientes da vida: na escola, no grupo de colegas ou amigos, com a gente mesmo, na família, na relação com as pessoas em geral, e na relação com Deus. Peco, portanto, quando não sou fiel a Deus ou aos irmãos (no sentido amplo do termo). A infidelidade conjugal é um exemplo de ruptura da fidelidade mútua do casal: um promete fidelidade ao outro por toda a vida. Trair esse compromisso é ser infiel, é ser um traidor. Trai, também, um amigo em relação ao outro. Trai um governante em relação aos seus eleitores ou aos compromissos de seu partido. Trai o pai em relação aos filhos. Mas fidelidade tem a ver com felicidade? É o que será visto em continuidade.

 2.      Fidelidade a Deus

Deus nos deu os dez mandamentos, e é fiel a Deus quem segue esses mandamentos, que devem ser vistos muito mais como orientações para um comportamento que contribua para a felicidade de todos do que como regras arbitrárias e impositivas de comportamento. Afinal, se pensarmos bem, toda e qualquer regra de comportamento humano visa – no final das contas – a garantir relacionamentos interpessoais positivos, respeitosos, amigáveis, igualitários e seguros. A regras (ou mandamentos) do trânsito, por exemplo, visam a este último aspecto: a segurança de todos os envolvidos com o trânsito.

Pode-se, então, indagar se é mais feliz aquele que segue a fidelidade a tais tipos de compromisso ou aqueles que os traem. Não parece difícil responder afirmativamente em relação àqueles que são fiéis: estes são, certamente, os mais felizes! A traição acaba por criar um ambiente relacional mais infeliz do que possa parecer, de início, ao traidor, quando pensa que por descumprir um compromisso (ou uma regra, ou uma palavra) esteja sendo feliz. Parece, desde já, que a fidelidade aos mandamentos de Deus e aos compromissos assumidos pelas pessoas seja a base da felicidade de todos.

3.      Fidelidade entre os casados

A promessa de fidelidade que ocorre entre aqueles que se casam na Igreja Católica (e em muitas outras) é uma promessa que não visa a acorrentar, a prender o marido à sua mulher e vice-versa. Mas visa, sobretudo, a garantir que, pela fidelidade a um compromisso de mútua entrega – em amplos sentidos – alcance-se uma família feliz, integrada, plena de afeto e amor, capaz de proporcionar aos filhos um padrão de educação favorável ao seu crescimento humano integral: em corpo e alma, no individual e no social, no público e no privado, na política e na religião, etc.

E longe de ser uma perda de liberdade, a fidelidade, especialmente baseada no amor-doação, amplia a liberdade, conforme nos ensina S. Agostinho: “Ama e faze o que quiseres!”. A vivência interpessoal do verdadeiro amor ilumina a vida, amplia a liberdade e lhe dá sentido, ficando evidente que qualquer coisa diferente não será a liberdade, mas a libertinagem, com todas as suas consequências nefastas.

4.      Fidelidade aos filhos

O casal mutuamente fiel é a garantia da felicidade da família! E os filhos, ao chegarem, exigem a fidelidade familiar: prometemos amar e educar os filhos que Deus nos der! E amar e educar na fé cristã! E essa educação humano-cristã dos filhos dar-se-á com cada vez mais perfeição quanto maior for a fidelidade mútua do casal e em relação a esse compromisso de educação da prole. A vivência dessa fidelidade familiar é, certamente, a base para a felicidade de todos na célula da sociedade! É como se diz por aí: “Filhos, ou os formamos ou os sofremos!”.

5.      Fidelidade aos irmãos

A sociedade humana carece de nossa fidelidade! Cada indivíduo, à medida que assume sua atuação profissional vai sendo desafiado a ser fiel aos compromissos assumidos. Portanto, políticos, juízes, médicos, engenheiros, advogados, árbitros de futebol, religiosos, policiais, etc., sendo fiéis à sua vocação social, certamente contribuirão para a “felicidade geral da pátria”. E, ao contrário, quando não somos fiéis à nossa vocação social, muitos problemas serão criados, tanto para nós próprios, quanto para os outros. Quando um médico, por exemplo, que jura com Hipócrates, lutar pela defesa da vida, passa a usar seus conhecimentos para provocar abortos, essa infidelidade será fonte de sofrimento para muitos. E se é fonte de felicidade para alguns, o é apenas aparente e temporariamente...                             

6.  6.   Felicidade: verdadeira e falsa

Pode-se, então, a partir da última afirmação, questionar sobre a felicidade: haverá uma falsa felicidade? E a resposta é sim. Muitas vezes, quando se pensa estar sendo feliz, essa felicidade pode ser apenas uma ilusão, uma felicidade falsa! Um exemplo é quando alguém, vivendo a infidelidade conjugal, em uma aparente felicidade com o parceiro secreto, vê tudo desmoronar diante da descoberta da infidelidade – que cedo ou tarde acaba por se revelar. E a infelicidade se concretiza não apenas para o cônjuge infiel, mas para toda a família! A verdadeira felicidade, baseada na fidelidade, foi carcomida pela traição conjugal, base de uma falsa felicidade. Como é infeliz aquele que busca a felicidade através da infidelidade!...

7. 7.   Conclusão

O então Papa João Paulo II, atual São João Paulo II, foi muito inteligente e feliz ao propor esta reflexão sobre a relação entre a fidelidade e a felicidade. Reflexão que conduz à conclusão de que não haverá verdadeira felicidade se não se trilharem os caminhos da fidelidade, seja qual for a dimensão de que se trate na vida humana:  individual, profissional, familiar, política, religiosa, etc. Que Deus nos abençoe nessa luta pela vivência da fidelidade nos relacionamentos da vida, para que a felicidade possa ser uma consequência natural e desejada desses relacionamentos.

Uilso Aragono. (dez. de 2021)

terça-feira, 30 de novembro de 2021

A VIDA NA FAMÍLIA CRISTÃ

 A vida na família cristã no mundo conturbado de hoje. Num mundo cheio de desvalores e em que os valores cristãos são questionados, desprezados e considerados antiquados, é preciso ter muita fé e coragem para continuar a viver a via em uma família cristã. Mas, se contarmos com a graça divina, poderemos vencer, e os frutos será a paz de espírito e a certeza da missão cumprida: a educação equilibrada de filhos cristão e cidadãos para um mundo melhor.

  Base da família: marido e mulher

O marido e a mulher são muito diferentes... Na dimensão pessoal, são diferentes no sexo, no temperamento, na personalidade, nos gostos, nas preferências e nas capacidades individuais. Na dimensão familiar, são diferentes no número de irmãos, na rigidez ou flacidez da educação recebida e na vivência religiosa. Finalmente, na dimensão social, são diferentes na cultura, na profissão exercida, na formação política e no círculo de amizades. Essas diferenças constituem e impõem um grande desafio ao casal, que precisará buscar informação e formação para seu crescimento pessoal, conjugal e familiar: os filhos agradecerão.

   Família cristã

Para constituirmos uma família verdadeiramente cristã, temos de nos conscientizar de que o amor e o respeito mútuos devem prevalecer: pois somos diferentes! A partilha fraterna dos bens e dos deveres deve ser um valor a ser seguido: pois somos irmãos em Cristo! A oração pessoal e familiar, diária, deve também ser uma constante na vida de uma família que se pretende cristã: pois somos filhos amados de Deus! Como “igreja doméstica”, nas palavras do então Papa Paulo VI, devemos buscar uma verdadeira vivência dos sacramentos: pois somos igreja peregrina, e sem esse suporte sacramental teremos muito mais dificuldade de vencermos as tentações do mundo, que nos atraem para todo tipo de pecado: a preguiça, o egoísmo, a indiferença religiosa e, até mesmo, a falta de fé. E, finalmente, não poderá faltar numa família cristã o verdadeiro diálogo: pois somente ele nos permitirá caminhar os caminhos da fraternidade e do amor aos irmãos.

  Diálogo conjugal e familiar

E o que é o verdadeiro diálogo? Não será, certamente, falar todas as verdades aos pais e aos irmãos... pois quem fala “todas as verdades” são os bêbados discutindo nos bares da vida. O diálogo verdadeiro consiste em falar a verdade com amor e no momento oportuno! E se o casal – a base da família – se acostumar a dialogar verdadeiramente, os filhos aprenderão a dialogar no amor. E ninguém é dono da verdade, a não ser aquele que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”! Todos nós outros devemos, humildemente, ouvir as possíveis verdades dos outros membros da família. E este será um bom exercício de tolerância social, tão necessária no mundo de hoje. E não se pode deixar de lembrar que a televisão, o computador e o celular podem ser sérios inimigos do verdadeiro diálogo – e até mesmo da simples conversa! –, na medida em que podem estar preenchendo os espaços para o encontro mútuo que daria ensejo ao diálogo e à expressão fraterna da simples conversa despretensiosa. Desligar a TV, o computador e deixar o celular descansar, e olhar uns para os outros... Finalmente, e o diálogo com Deus? – é a oração em família, que não pode faltar naquela que busca ser uma família cristã.

   Harmonia conjugal e familiar

A desejada harmonia conjugal e familiar baseia-se no amor conjugal: se os pais se amam, os filhos sentem os reflexos desse amor! Já ensinava o falecido padre, médico e escritor João Mohana: “Querem bem educar os seus filhos? – amem-se profundamente, pais!”. Para além disso, que é basilar, deve-se investir tempo na educação dos filhos, que é função primordial dos pais; a Escola dá “escolaridade”, informação e alguma formação básica, mas a “educação” de verdade deve vir dos pais, do interior familiar. E se a família não é fonte da educação... o mundo os educará com todos os seus piores “desvalores”.

Com relação à educação, os valores cristãos devem ser exercitados no interior da família: a caridade, o perdão, o respeito, a paciência, a partilha etc. E a família deve cultivar, ainda, para não se tornarem “estranhos” uns aos outros, o lazer familiar: brincar juntos, assistir a bons programas de TV, participar de eventos artísticos, viajar juntos nas férias, visitar parentes e amigos, juntos. Ter esses momentos juntos, em família, é fundamental para o crescimento do amor mútuo e para o exercício dos valores cultivados na família. O contrário disso – a vivência do desrespeito, da indiferença, da impaciência, do desamor, só levará ao caos familiar...

   Missão dos pais

O pai deve estar consciente de que será, para os filhos, a imagem do Deus-Pai, simbolizando o poder e a segurança diante dos filhos. A mãe estará consciente de que deve ser, para os filhos, como que a Mãe Maria: mãe da ternura, do amor, da entrega, da confiança no Deus que nos ama. Simboliza o afeto e a proteção para os filhos. E, na prática, o pai e a mãe devem conscientizar-se de que – como já ensinava um psicólogo – “devem adotar os filhos, pois todo filho ou é adotado ou não é filho”. Adotar significa “assumir” o filho como verdadeiro filho, independentemente de ser um filho biológico ou por adoção jurídica. E se os pais não adotarem os filhos, pode ser que algum traficante o faça...

A educação dos filhos significa, ainda, dar mais atenção a eles do que à casa, ao carro, ao celular ou aos interesses profissionais. Pois, na verdade, tudo o que os pais fazem doméstica e profissionalmente visa ao bem-estar da família e dos filhos. Não dar atenção aos filhos por causa do trabalho, das necessidades da casa, da necessidade de ler jornais, por causa do possível “vício” do uso do celular é trair a vocação a que são chamados como pais e educadores.

Finalmente, devem os pais considerarem-se amigos dos filhos, sim, mas sem, jamais, deixar de serem pai e mãe, cuja autoridade – não autoritarismo – deve ser sempre exercida para o bem mesmo dos próprios filhos, que, no fundo, desejam ter um “amigo” que lhes seja, também, um orientador, um conselheiro, e que fale – como Jesus – com “autoridade” diante deles.

   Educação sexual na família

A verdadeira educação sexual ou formação da sexualidade – e não simples informação sobre os aspectos da sexualidade humana – deve ser aprendida em casa, na família: com amor, naturalidade e sagrado respeito. Essa educação de qualidade será iluminada pelos valores cristãos, onde a castidade não pode deixar de ser admirada, avaliada e estudada, pois, para além da simples virgindade, é um valor cristão dos maiores, e que, como os demais, conduz à santidade. A curiosidade dos filhos quanto à sexualidade deverá ser atendida de acordo com a idade, com a capacidade de compreensão da criança, do adolescente e do jovem. Enfrentar as cenas de sexo que são tão facilmente disponíveis hoje em dia na TV, nas revistas e nos computadores, tablets e celulares, é algo imperioso no seio da família. Que os pais vejam com os filhos tais cenas (apropriadas à idade) e as avaliem do ponto de vista da moral cristã. E bons livros não faltam que falem sobre os aspectos morais  e cristãos relativos à sexualidade: devem ser lidos e discutidos em família.

Conclusão

A vida na família cristã e católica pode ser maravilhosa se os pais se deixarem penetrar pela riqueza da mensagem cristã e buscarem vivê-la em família. Com a graça de Deus, buscando viver uma igreja doméstica, pais e filhos poderão crescer na fé e na vivência do diálogo com amor, obtendo frutos de harmonia familiar: paz, entendimento e amor. Que o Espírito Santo nos oriente nessa caminhada da vida em família e nos permita continuar usufruindo os seus frutos espirituais.

Uilso Aragono (Nov. de 2021)

domingo, 31 de outubro de 2021

MILAGRES ORIGINAIS DE JESUS NOS EVANGELHOS – PARTE V

 Este artigo pretende apresentar a quinta parte (de um total de 5) dos milagres aqui chamados “originais”, isto é, não repetidos, relatados nos 4 evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Escrevi vários outros artigos apresentando todos os milagres descritos pelos 4 evangelistas, fazendo pequenos comentários e ressaltando aqui e ali algumas comparações entre milagres que se repetiam com versões ligeiramente ou bastante diferentes. Foram identificados 120 milagres no total. Eliminando-se aqueles que se repetiam, mantendo-se apenas um representante dos repetidos, resultaram 71 milagres ditos “originais” (não repetidos).

44. JESUS CURA UMA MULHER ENCURVADA, EM DIA DE SÁBADO: Jesus estava ensinando numa sinagoga em dia de sábado. Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. Vendo-a, Jesus dirigiu-se a ela e disse: “Mulher, você está livre da sua doença”. Jesus colocou as mãos sobre ele, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus. O chefe da sinagoga ficou furioso porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado. E tomando a palavra começou a dizer à multidão: “Há seis dias para trabalhar. Venham, então, nesses dias e sejam curados, e não em dia de sábado”. O Senhor lhe respondeu: “Hipócritas! Cada um de vocês não solta do curral o boi ou o jumento para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Aqui está uma filha de Abraão que Satanás amarrou durante dezoito anos. Será que não deveria ser libertada dessa prisão em dia de sábado?” (Lc 13,10-15). – Esta passagem, exclusiva de Lucas, nos mostra um Jesus misericordioso, bem diferente da dureza de coração dos religiosos da época. Pode-se perguntar: Vem a Lei antes da Misericórdia? Jesus responde que não. É o contrário. A Misericórdia é o próprio Deus! Ele, portanto, vem antes da Lei. Precisamos, em tudo, sermos misericordiosos como Jesus, e antes de toda e qualquer lei que possa estar impedindo essa ação de amor.

45. CURA EM DIA DE SÁBADO: Num dia de sábado, aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus que o observavam. Havia um homem hidrópico diante de Jesus. Tomando a palavra, Jesus falou aos especialistas em leis e aos fariseus: “A Lei permite ou não permite curar em dia de sábado?”. Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e o despediu. Depois disse a eles: “Se alguém de vocês tem um filho ou um boi que caiu num poço não o tiraria logo, mesmo em dia de sábado?”. E eles não foram capazes de responder a isso (Lc 14, 1-6). – De novo, como na passagem anterior, Lucas nos mostra Jesus curando um doente – neste caso com uma doença bem definida: a hidropisia (excesso de líquido em alguma parte do corpo). E era um dia de sábado, que, para os judeus, era (e ainda é) um dia de descanso, onde qualquer ‘trabalho’ era proibido. Na passagem anterior, Jesus lembrou que eles soltavam os animais para que fossem beber água, mesmo em dia de sábado. E, agora, desafia-os com a possibilidade de um filho ou um animal caído em um poço: não iriam eles logo tirá-lo do poço? Isto lhes mostra – e a nós – que o dia do descanso (sábado) ou o dia do Senhor (domingo, para nós, católicos) é, sobretudo, um dia dedicado ao Senhor. E o que mais agrada ao nosso Deus do que a vivência da caridade, da misericórdia, do amor concreto? Agir com misericórdia não infringe a Lei do sábado, mas agir sem misericórdia, sim: infringe a Lei maior do Amor: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo...

46. JESUS CURA DEZ LEPROSOS: Caminhando para Jerusalém, aconteceu que Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos foram ao encontro dele. Pararam de longe e gritaram: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”. Ao vê-los, Jesus disse: “Vão apresentar-se aos sacerdotes”. Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Ao perceber que estava curado, um deles voltou atrás dando glória a Deus em alta voz. Jogou-se no chão, aos pés de Jesus, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?”. E disse a ele; “Levante-se e vá. Sua fé o salvou” (Lc 17, 11-19). – Passagem sem paralelo exato com os demais evangelhos, mostra-nos um Jesus que não se negava a fazer curas milagrosas. Mas este texto mostra, sobretudo, que os judeus, embora povo escolhido por Deus, estava falhando em dar lhe glória e ações de graças pelos benefícios do Senhor. E, justamente, um samaritano, um estrangeiro e objeto de todo desprezo e preconceito por parte dos judeus, é quem vem agradecer e dar glória a Deus pelos seus benefícios! Não sejamos mal agradecidos! Mas elevemos a Deus, em tudo, nossas mãos, em ação de graças pela vida e por Seus dons e benefícios. 

47. O CEGO DE JERICÓ: Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego estava sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. Ouvindo a multidão passar, ele perguntou o que estava acontecendo. Disseram-lhe que Jesus Nazareno passava por ali. Então o cego gritou: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. As pessoas que iam na frente mandavam que ele ficasse quieto, mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade d mim!”. Jesus parou e mandou que levassem o cego até ele. Quando o cego chegou perto, Jesus perguntou: “O que quer que eu faça por você?”. O cego respondeu: “Senhor, eu quero ver de novo!”. Jesus disse: “Veja. A sua fé curou você”. No mesmo instante, o cego começou a ver e seguia Jesus, glorificando a Deus. Vendo isso, todo o povo louvava a Deus (Lc 18, 35-43). –  Este episódio tem paralelo com Mateus (20,29-34) e com Marcos (10,46-52). Mais uma vez, Jesus tem misericórdia e não se nega a curar o doente. E mais uma vez Ele, humildemente, atribui à fé do doente a sua cura. Sabemos que Jesus pode curar, independentemente da nossa fé. Mas Ele faz questão de ressaltar que a fé nos faz dóceis à ação do Espírito de Deus. E, estando nessa situação de confiança, Deus nosso Pai não se nega a dar-nos aquilo que nos fará bem ou que fará bem à comunidade dos Seus filhos.


48. JESUS PREVÊ UM JUMENTINHO AMARRADO: Quando Jesus se aproximou de Betfagé e de Betânia, perto do chamado monte das Oliveiras, enviou dois discípulos, dizendo: “Vão até o povoado em frente. Quando vocês entrarem aí, vão encontrar, amarrado, um jumentinho que nunca foi montado. Desamarre o animal e o tragam. Se alguém lhes perguntar: ‘Por que vocês o estão desamarrando?’ vocês responderão: ‘Porque o Senhor precisa dele’”. Os discípulos foram e encontraram as coisas como Jesus havia dito (Lc 19, 29-32). – Este episódio, também narrado em Mateus (21,1-4), e em Marcos (11, 1-4), embora não seja um “milagre” como os anteriores, não deixa de ser uma manifestação quase milagrosa, na medida em que não é natural, pelo ser humano, a previsão de coisas futuras (mesmo de um futuro próximo, como é o caso). É mais uma manifestação sobrenatural (ou preternatural, no mínimo) do “Filho do Homem”, como Jesus gostava de se chamar. E demonstra, ainda, que Jesus era reconhecido como o “Senhor” – título normalmente atribuído a Deus – pelos moradores de Jerusalém.

49. JESUS PREVÊ ONDE COMERÁ A PÁSCOA: Chegou o dia dos Ázimos, em que se matavam os cordeiros para a Páscoa. Jesus mandou Pedro e João, dizendo: “Vão, e preparem tudo para comermos a Páscoa”. Eles perguntaram: “Onde queres que a preparemos?”. Jesus respondeu: “Quando vocês entrarem na cidade, um homem carregando um jarro de água virá ao encontro de vocês. Sigam-no até a casa onde ele entrar e digam ao dono da casa: “O Mestre manda dizer: ‘Onde é a sala em que eu e os meus discípulos vamos comer a Páscoa?’. Então ele mostrará para vocês, no andar de cima, uma sala grande, arrumada com almofadas. Preparem tudo aí”. Os discípulos foram e encontraram tudo como Jesus havia dito. E prepararam a Páscoa (Lc 22, 7-13). – Este episódio, como o anterior, também é narrado por Mateus (26,17-19) e Marcos (12-16). E como no episódio anterior, também pode ser considerado um ‘quase milagre’, já que não é natural, aos homens, prever o futuro (mesmo que próximo) com tanta precisão. É mais uma manifestação poderosa do Senhor, que é reconhecido pelos habitantes de Jerusalém como sendo o Mestre, pois o dono da casa, sem qualquer questionamento lhe cedeu a sala superior (normalmente conhecida pelos cristãos como Cenáculo) para a Sua Páscoa.

50. JESUS PREVÊ A NEGAÇÃO DE PEDRO: “Simão, Simão! Olhe que Satanás pediu permissão para peneirar você como trigo. Eu, porém, rezei por você para que a sua fé não desfaleça. E você, quanto tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos.” Mas Simão falou: “Senhor, contigo estou pronto para ir até mesmo para a prisão e para a morte!”. Jesus, porém, respondeu: “Pedro, eu lhe digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes você negará que me conhece.” (Lc 22,31-34). – Este episódio tem paralelo com os evangelistas Mateus (26, 30-35), Marcos (14,26-31) e João (13, 36-38). Aqui, verifica-se, mais uma vez, que Jesus tem o poder da precognição (como se diz na Parapsicologia): Ele prediz a negação de Pedro, mesmo contra a contestação do próprio Pedro, que lhe garante sua fidelidade até a morte! E tudo acontece conforme a palavra de Jesus! É, praticamente, um milagre! Como pode alguém prever, com tanta precisão (“...antes que o galo cante, três vezes me negará...”) o futuro? Só acreditando numa manifestação sobrenatural, pois Deus conhece tudo!

51. JESUS CURA O ORELHA DE UM OFICIAL: Vendo o que ia acontecer, os que estavam com Jesus disseram: “Senhor, vamos atacar com a espada?”. E um deles feriu o empregado do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus ordenou: “Parem com isso!”. E tocando a orelha do homem, curou-o (Lc 22, 49-51). – Em paralelo a este episódio encontram-se os textos de Mateus (26-51-52), Marcos (14,47) e João (18, 10-11) – sendo que os dois últimos não citam a cura da orelha, realizada por Jesus. Mas Lucas e Mateus declaram a cura imediata da orelha decepada pela espada de um dos discípulos. Se tal evento ocorreu, a cura, então, mais uma vez, Jesus exerceu sua misericórdia costumeira e curou até mesmo um de seus algozes. Qual terá sido a reação desse soldado ao ter uma orelha decepada e, imediatamente, tê-la de volta, curada? Certamente Jesus sabia que nem o próprio beneficiado e nem os que o acompanhavam, testemunhas oculares, estariam em condições de qualquer conversão à fé no Filho do Homem. Porque eram soldados ou funcionários totalmente submetidos à autoridade do Sumo Sacerdote e dos doutores da Lei. Não eram, provavelmente, pessoas do povo, que tinham a oportunidade de seguir um rabino, um profeta ou um líder qualquer.

52. A CORTINA DO SANTUÁRIO RASGA-SE AO MEIO: Já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu toda a região até as três horas da tarde, pois o sol parou de brilhar. A cortina do santuário rasgou-se pelo meio. Então Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.”. Dizendo isso, expirou. O oficial do exército viu o que tinha acontecido e glorificou a Deus, dizendo: “De fato! Este homem era justo!”. E todas as multidões que estavam aí, e que tinham vindo para assistir, viram o que havia acontecido e voltaram para casa batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, assim como as mulheres que o acompanhavam desde a Galileia, ficaram a distância, olhando essas coisas (Lc 23, 44-49).  Escuridão, cortina rasgando-se ao meio... Sinais maravilhosos que acompanharam a morte do Filho de Deus! A escuridão pode ser interpretada como uma manifestação da natureza contra a injustiça e a maldade humana, que não quis aceitar o Justo, o Redentor. A cortina rasgada do Templo, que separava os sacerdotes do Santo dos Santos (onde só entrava um único sacerdote, por sorteio, como aconteceu com Zacarias; cf. Ex 26, 31s) pode significar que a separação existente entre os homens e Deus – em função dos grandes pecados de toda a humanidade! – já não mais existia: a expiação dos pecados do mundo já terá acontecido; o mundo estava redimido diante de Deus. Deus se humanizara para que o homem se divinizasse!... Além disso, pode-se entender que o velho culto mosaico estivesse sendo superado: nascia uma nova era cristã.

53. A PEDRA DO TÚMULO FOI REMOVIDA: No primeiro dia da semana, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo de Jesus levando os perfumes que haviam preparado. Encontraram a pedra do túmulo removida. Mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus e ficaram sem saber o que estava acontecendo. Nisso, dois homens, com roupas brilhantes pararam perto delas. Cheias de medo, elas olhavam para o chão. No entanto, os dois homens disseram: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou! (Lc 24, 1-6a). – Quem teria retirado a grande pedra que fora posta à entrada do túmulo de Jesus? Teriam sido esses dois “anjos” que apareceram às mulheres e que lhes anunciaram que Jesus ressuscitara? É possível. O fato é que não havia mais pedra tampando a entrada do túmulo e nem mais o corpo do Senhor!  Mais um milagre “post-mortem” do Senhor! Para quem é o Filho de Deus, nada é impossível! Não somente Jesus ressuscitou, deixando o túmulo aberto, como deixou, também, os panos que o enfaixavam: o grande lençol, em peça única, de mais de 4 metros, que envolveu o corpo do Senhor e que hoje é venerado e chamado de Santa Síndone ou Santo Sudário! Mais um milagre: pois é o objeto cristão mais estudado cientificamente e continua encantando e provocando admiração nos cientistas, que não conseguem explicar a origem da imagem lá presente, como em um negativo de filme fotográfico.

54. JESUS SE OCULTA E SE MOSTRA AOS DISCÍPULOS DE EMAÚS: Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco pois já é tarde e a noite vem chegando”. Então Jesus entrou para ficar com eles. Sentou-se à mesa com os dois, tomou o pão e abençoou-o, depois o partiu e deu a eles. Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles (Lc 24, 28-31). – Jesus, algumas vezes, depois da sua Ressurreição, aparece aos discípulos sob forma humana, mas com aparência diversa daquela conhecida por eles. Neste episódio, acontece o mesmo: os discípulos de Emaús conversavam com uma pessoa desconhecida. Esta já é uma manifestação miraculosa do Senhor. E ele se mostra a eles fazendo mais um milagre: abrindo-lhes os olhos durante a “Fração do Pão” (que é a Eucaristia). Podemos tirar uma importante lição: o Senhor nos abre os olhos da fé – se estivermos preparados ouvindo-o, adorando-o, louvando-o! – diante de toda a Eucaristia! Procuremos, sempre, “ver” Jesus ao ajoelharmo-nos, com fé e bem preparados espiritualmente, diante do milagre eucarístico de cada Missa!

55. JESUS APARECE NO MEIO DOS DISCÍPULOS: Então os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão. Ainda estavam falando, quando Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Espantados e cheios de medo, pensavam estar vendo um espírito. Então Jesus disse: “Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho.”. E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles ainda não estivessem acreditando, por causa da alegria e porque estivessem espantados, Jesus disse: “Vocês têm aqui alguma coisa para comer?”. Eles ofereceram a Jesus um pedaço de peixe grelhado. Jesus pegou o peixe e o comeu diante deles (Lc 24, 35 – 42). – É maravilhoso como o Senhor tem misericórdia de nossa humanidade tão incrédula! Aparece, desta vez, como era conhecido pelos discípulos, mostra-lhes as mãos e os pés e constata, ainda, a sua incredulidade! Diante disso, resolve pedir algo para comer! Pois, definitivamente, um espírito não pode comer algo tão material como comida: e Ele come o peixe diante deles! Que milagre! Jesus fora morto, aparece vivo, e come diante dos discípulos para lhes abrir os olhos da fé, de forma muito humana. Além disso, não deixará de lhes enviar o Espírito Santo para lhes abrir, definitivamente, a mente, o coração e a fé para as realidades espirituais, que são muito mais poderosas do que todas as realidades mundanas...

56. O ESPÍRITO SANTO DESCE SOBRE JESUS: E João testemunhou: “Eu vi o Espírito descer do céu, como uma pomba, e pousar sobre ele. Eu também não o conhecia. Aquele que me enviou para batizar com água, foi ele quem me disse: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e pousar, esse é quem batiza com o Espírito Santo’. E eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1, 32-34). – A descida do Espírito Santo, de forma visível, sobre Jesus, e testemunhada por João Batista, não deixa de ser um verdadeiro milagre: João fora avisado e esperava que isso fosse acontecer; e ocorreu como ele esperava! E não teve dúvidas de que a pomba que desceu e pousou sobre Jesus, após este ser batizado, estivesse representando a presença real do próprio Espírito Santo!  E também não teve dúvidas em proclamar: “Este é o Filho de Deus!”. Este episódio é citado, de forma diferente, pelos evangelistas Mateus (3, 16-17), Marcos (1, 9-11) e Lucas (3, 21-22); nesses últimos, uma voz é ouvida pelos presentes: “Tu és meu Filho amado! Em ti encontro o meu agrado!”. Essas variações, ou diferenças, entre os evangelhos, para além de colocar em dúvida o episódio realmente acontecido, na verdade o valoriza, pois mostra que não são cópias uns dos outros, mas testemunhos autênticos de autores diversos, narrando o acontecimento conforme cada um teve a oportunidade de recebê-lo das fontes (orais ou escritas) disponíveis à sua época. E mostra também com o Autor Sagrado é iluminado pelo Espírito de Deus, mas sua memória, sua mentalidade é respeitada, na medida em que a realidade essencial seja preservada.

57. JESUS MUDA A ÁGUA EM VINHO: No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos. Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho!”. Jesus respondeu: “Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou”. A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: “Façam o que ele mandar”. Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. Jesus disse aos que serviam: “Encham de água esses potes”. Eles encheram os potes até a boca. Depois Jesus disse: “Agora tirem e levem ao mestre-sala”. Então levaram ao mestre-sala. Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo e disse: “Todos servem primeiro o vinho bom e quando os convidados estão bêbados servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora!” (Jo 2, 1-10). – Este é considerado o primeiro milagre de Jesus ou também chamado a autorrevelação de Jesus nas bodas de Caná. É considerado o primeiro também porque a descida do Espírito Santo (milagre anterior) não é considerada um evento portentoso e que tenha afetado a vida das pessoas, como é o caso de Caná. Seja como for, é a primeira manifestação pública de poder de Jesus e que fez com que seus discípulos “acreditassem nele” (Jo 2, 11c). Aqui aparece, claramente, o poder de Maria, Mãe de Jesus, como intercessora junto a Seu Filho: foi Ela quem se interessou pelo problema dos anfitriões, surgido pela falta do vinho, e quem pediu a Jesus que tomasse uma providência, confiante, no poder que Jesus tinha para resolver tal problema. E se Jesus, aparentemente, a trata com desprezo (“Mulher, o que existe entre nós”(Jo 2,4) ou “... o que queres de mim, mulher?”, numa outra versão), chamando-a de “mulher” e não de “mãe”, como seria de se esperar, muitos exegetas (intérpretes dos textos bíblicos) já interpretaram o uso deste termo “mulher”, pelo autor do texto, como se referindo, simbolicamente, à nova Eva: se pela primeira mulher veio o pecado original para toda a humanidade, pela nova “mulher”, a nova Eva, vieram a graça e a salvação para todos. Este termo, portanto, tem um alcance profético muito maior do que teria se Jesus a chamasse de “mãe”. E o autor vai utilizá-lo, novamente, quanto Jesus, na cruz, se refere a Maria: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 26b).

58. JESUS SE REVELA À SAMARITANA: Jesus disse à samaritana: “Vá chamar o seu marido e volte aqui”. A mulher respondeu: “Eu não tenho marido”. Jesus disse: “Você tem razão ao dizer que não tem marido. De fato, você teve cinco maridos. E o homem que você tem agora, não é seu marido. Nisso você falou a verdade”. A mulher então disse a Jesus: “Senhor, vejo que és um profeta!” (Jo 4, 16-19). – No Evangelho de João, Jesus é apresentado como alguém que tem, claramente, a clarividência e o poder sobrenatural de conhecer os pensamentos e detalhes da vida das pessoas. E, de fato, sendo o Verbo encarnado, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus tem o poder de conhecer as pessoas, seus pensamentos e os acontecimentos presentes e futuros. Este poder Ele usava, comumente, para demonstrar ao povo quem Ele era: alguém diferente, enviado por Deus e com poderes divinos. Era para lhes facilitar a crença nEle, já que isto era importante para que fossem curados e salvos. Que nós aceitemos Jesus como nosso Mestre e Senhor, nosso Deus e nosso Amigo, que nos conhece e quer o nosso bem: quer nos curar, nos fortalecer na Fé e nos salvar para a Vida Eterna em Deus. Amém.

 59. JESUS CURA O FUNCIONÁRIO DO REI: Jesus voltou para Caná da Galileia, onde havia transformado a água em vinho. Ora, em Cafarnaum havia um funcionário do rei que tinha um filho doente. Ele ouviu dizer que Jesus tinha ido da Judeia para a Galileia. Sai ao encontre de Jesus e lhe pediu que fosse a Cafarnaum curar seu filho que estava morrendo.  Jesus disse-lhe: “Se vocês não veem sinais e prodígios, vocês não acreditam”. O funcionário do rei disse: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!”. Jesus disse-lhe: “Pode ir, seu filho está vivo”. O homem acreditou na palavra de Jesus e foi embora. Enquanto descia para Cafarnaum seus empregados foram ao seu encontre e disseram: “Seu filho está vivo”. O funcionário perguntou a que horas o menino tinha melhorado. Eles responderam: “A febre desapareceu ontem pela uma hora da tarde”. O pai percebeu que tinha sido exatamente na mesma hora que Jesus havia dito: “Seu filho está vivo”. Então ele acreditou, juntamente com toda a sua família (Jo 4, 46-53). – O funcionário do rei “acreditou na palavra de Jesus”. Este episódio deveria ser acolhido por cada um de nós como um exemplo de que podemos e devemos acreditar na palavra de Jesus, que é Deus e nos ama infinitamente. Veio para nos curar de todas as doenças, mentais, físicas e espirituais, e nos libertar das opressões e possessões dos demônios, muito comuns naquela época, e ainda hoje. Ora, o Evangelho está cheio das promessas de Cristo; promessas de cura, libertação e santificação. Por que não acreditarmos, como o funcionário do rei? Jesus nos diz ainda hoje – porque sua Palavra é viva e eficaz, e válida para todos os tempos: “Pode ir seu filho está vivo”. Ele está dizendo isto, e tantas outras coisas, para nós! Precisamos acreditar! Como o funcionário! E assim, receberemos os frutos das benditas e eficazes palavras do Senhor! Só precisamos ter Fé; só precisamos acreditar!

 60. JESUS CURA UM PARALÍTICO: Aí ficava um homem que estava doente havia trinta e oito anos. Jesus viu o homem deitado e ficou sabendo que estava doente há tanto tempo. Então lhe perguntou: “Você quer ficar curado?”. O doente respondeu: “Senhor, não tenho ninguém que me leve à piscina quando a água está se movendo. Quando vou chegando, outro já entrou na minha frente”. Jesus disse: “Levante-se, pegue sua cama e ande”. No mesmo instante, o homem ficou curado, pegou sua cama e começou a andar (Jo 5, 5 – 9). – Neste episódio, Jesus mostra, mais uma vez, toda a sua misericórdia e o seu amor pelas pessoas, especialmente as mais necessitadas. Mas é interessante notar que Jesus não impôs a cura ao homem. Perguntou-lhe se queria ser curado e, só depois da confirmação do desejo é que Jesus o cura. Também nós devemos manifestar diante de nosso Senhor o nosso desejo de sermos curados! Pois mesmo que Ele veja nossas mazelas e nossas doenças, sem a manifestação expressa de nosso desejo, Ele não nos poderá curar! Aqui vemos um grande exemplo da humildade que deve acompanhar toda pessoa doente. Pois, como diz o ditado: “O pior cego é aquele que não quer ver”. Se, mesmo cheio de pecados, doenças, fragilidades, não pedirmos, com humildade, ao Senhor que nos cure, a cura não virá automaticamente! É por isto que a única oração que o Senhor nos ensinou é constituída por petições. Sim, são sete os pedidos que apresentamos ao Senhor quando rezamos o Pai-Nosso. É um exercício de humildade diante de Deus, que muito nos ajuda a crescermos no amor a Deus e aos irmãos.

61. MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES: Estava próxima a Páscoa, festa dos judeus. Jesus ergueu os olhos e viu uma grande multidão que vinha ao seu encontro. Então disse Jesus a Filipe: “Onde vamos comprar pão para eles comerem?”. (...) Um discípulo de Jesus, André, o irmão de Simão Pedro disse: “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isto para tanta gente?”. Então Jesus disse: “Falem para o povo sentar”. Havia muita grama nesse lugar e todos se sentaram. Estavam aí cinco mil pessoas, mais ou menos. Jesus pegou os pães, agradeceu a Deus e distribuiu aos que estavam sentados. Fez a mesma coisa com os peixes. E todos comeram o quanto quiseram. Quando ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: Recolham os pedaços que sobraram, para não se desperdiçar nada”. Eles recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães que haviam comido (Jo 6,4-5.8-13). – Este episódio, como já refletido em relação aos outros semelhantes, mostra que existiu de fato, uma multiplicação miraculosa de pães e peixes para uma grande multidão. E isto se verifica pela constatação de Filipe, após averiguar a situação da multidão, de que só tinha encontrado um rapaz com “cinco pães de cevada e dois peixes”. Ora, a multidão, atraída pelo magnetismo espiritual de Cristo, foi ficando sem alimentos ao longo dos dias. E somente uma intervenção milagrosa poderia lhes fornecer alimentação a partir de tão poucos pães e peixes! Este capítulo, por este milagre, introduz o grande discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”, que é Ele mesmo!

62. JESUS CAMINHA SOBRE AS ÁGUAS: Ao cair da tarde, os discípulos de Jesus desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já era noite, e Jesus ainda não tinha ido ao encontro deles. Soprava vento forte e o mar estava agitado. Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco ou seis quilômetros, quando viram Jesus andando sobre as águas e aproximando-se da barca. Então ficaram com medo, mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenham medo”. Eles quiseram recolher Jesus na barca, mas nesse instante a barca chegou à margem para onde estavam indo (Jo 6, 16-21). – Este milagre é contado também em Mateus (14, 22-33) e em Marcos (6, 45-52). Embora com detalhes variáveis, pois os Evangelhos não são simples cópias uns dos outros, verifica-se o poder de Cristo sobre a natureza! Jesus andou sobre as águas para chegar até seus discípulos. Fez isto para aparecer diante deles? Certamente que não! Mas o fez para acender neles a fé, a certeza de que estavam seguindo o verdadeiro Messias, o Filho de Deus. Seus discípulos eram consolados por esses milagres, e tantos outros não descritos nos Evangelhos, que Jesus lhes fazia por amor e para lhes aumentar a confiança nele.

63. JESUS CURA UM CEGO DE NASCENÇA: Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Os discípulos perguntaram: “Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?”. Jesus respondeu: “Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus. Nós temos que realizar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Está chegando a noite, e ninguém poderá trabalhar. Enquanto estou no mundo eu sou a luz do mundo”. Dizendo isso, Jesus cuspiu no chão, fez barro com saliva e com o barro ungiu os olhos do cego. E disse: “Vá se lavar na piscina de Siloé”. (Esta palavra quer dizer “O Enviado”). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando (Jo 9, 1-7). – Nesta passagem do Evangelho, Jesus quer nos mostrar que as doenças que nos atingem não são resultado, necessariamente, de nossos pecados (embora em alguns casos, estes contribuam com as doenças – as chamadas doenças psicossomáticas e as “doenças espirituais”). Portanto, se alguém estiver doente, não seja visto como mais pecador do que os que estejam sãos. Mas nosso Deus, como explica Jesus, utiliza essas situações resultantes da própria natureza humana para “manifestar as obras de Deus”. É por isso que em muitas provações por que passam algumas famílias, elas saem fortalecidas na fé; conversões ocorrem em situações de doença e outros males (acidentes) que atinjam as pessoas. Porque “Deus faz das pedras (males) filhos de Abraão (pessoas renovadas na fé)”.

 64.  JESUS ESCAPA DAS MÃOS DAS AUTORIDADES: Por que vocês me acusam de blasfêmia, se eu digo que sou Filho de Deus? Se não faço as obras do meu Pai, vocês não precisam acreditar em mim. Mas se eu as faço, mesmo que vocês não queiram acreditar em mim, acreditem pelo menos em minhas obras. Assim vocês conhecerão, de uma vez por todas, que o Pai está presente em mim, e eu no Pai”. Eles tentaram outra vez prender Jesus, mas ele escapou das mãos deles (Jo 10, 36b-39). – Este episódio, sem paralelo nos outros evangelhos, mostra como um coração fechado à graça de Deus pode ser tão duro! Afinal, Jesus lhes lembra (aos judeus) que ele fizera muitas obras miraculosas e, mesmo assim, não querem aceitar a possibilidade de que Ele seja ao menos um grande profeta!... Mas fixam-se na afirmação de Jesus de que é o Filho de Deus, de que Deus seja seu Pai, e o consideram um blasfemo. Mas isto foi só mais uma desculpa para justificar o apedrejamento de Jesus, visto que também já tinham atribuído a Belzebu (o Diabo) o poder que Ele (Jesus) demonstrara em suas curas. É incrível o que um coração duro, fechado à ação da graça de Deus, pode fazer: resistir ao Espírito Santo e não aceitar nem mesmo os milagres com que Deus lhe quer presentear!

65. JESUS FAZ LÁZARO REVIVER: Jesus, contendo-se de novo, chegou ao túmulo. Era uma gruta, fechada com uma pedra. Jesus falou: “Tirem a pedra”. Marta, irmã do falecido, disse: “Senhor, já está cheirando mal. Faz quatro dias”. Jesus disse: “Eu não lhe disse que, se você acreditar, verá a glória de Deus?”. Então tiraram a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves. Mas eu falo por causa das pessoas que me rodeiam, para que acreditem que tu me enviaste”. Dizendo isso, gritou bem forte: “Lázaro, sai para fora!”. O morto saiu. Tinha os braços e as pernas amarrados com panos e o rosto coberto com um sudário. Jesus disse aos presentes: “Desamarrem e deixem que ele ande” (Jo 11, 38-44) – Este milagre, conhecido como a Ressurreição de Lázaro, deve ser entendido como um reavivamento do corpo físico, e não como uma verdadeira “ressurreição”, como foi a do próprio Cristo. Esta foi uma verdadeira ressurreição porque não é uma simples volta à vida, neste mundo, como foi a de Lázaro, mas é o ressurgir da vida humana em um corpo glorioso, destinado à vida no Céu e não neste mundo. Jesus ressuscitou e, depois de ter ficado algum tempo aqui na Terra, com os apóstolos, subiu definitivamente ao Céu, com seu corpo glorioso, como teremos também o nosso, na futura ressurreição dos mortos, no fim dos tempos!

66. UMA VOZ DO CÉU FALA AO POVO: Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, manifesta a glória do teu nome! Então veio uma voz do Céu: “Eu manifestei a glória do meu nome e vou manifestá-la de novo”. A multidão que aí estava ouviu a voz e dizia que tinha sido um trovão. Outros diziam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus disse: “Essa voz não falou por causa de mim, mas por causa de vocês. Agora é o julgamento deste mundo. Agora o príncipe deste mundo vai ser expulso e, quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Jesus assim falava para indicar com que morte ia morrer (Jo 12, 27-33). – Este relato do Evangelho de João mostra, não um milagre propriamente dito, mas uma manifestação sobrenatural de Deus-Pai, já que uma voz é ouvida por todos os presentes. E Jesus observa que aquela voz se manifestou para o bem dos que ali estavam. Jesus já estava preparando o povo para a “sua hora”, a hora da sua “glorificação”, pela paixão e pela morte na cruz. Os que ouviram a voz com coração aberto, sem preconceitos, podem ter recebido o benefício (como disse Jesus), a graça, de terem compreendido que Jesus, de fato, era o Messias enviado por Deus, mas não como o messias guerreiro que eles esperavam. Este episódio marca a terceira vez que o Pai se manifesta por uma voz poderosa vinda do alto: as outras duas vezes foram durante o Batismo no Jordão e durante a Transfiguração no Tabor.

67. OS SOLDADOS CAEM POR TERRA.  Então Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, saiu e perguntou a eles: “Quem é que vocês estão procurando?”. Eles responderam: “Jesus de Nazaré”. Jesus disse: “Sou eu”. Judas, que estava traindo Jesus, também estava com eles. Quando Jesus disse: “Sou eu”, eles recuaram e caíram no chão. Então Jesus perguntou de novo: “Quem é que vocês estão procurando?”. Eles responderam: “Jesus de Nazaré”. Jesus falou: “Já lhes disse que sou eu. Se vocês estão me procurando, deixem os outros ir embora”. Era para se cumprir a Escritura que diz: “Não perdi nenhum daqueles que me deste” (Jo 18, 4-9). – Este episódio nos choca ao percebermos que, mesmo diante de um fenômeno totalmente miraculoso como este, o fato de, pela resposta de Jesus, terem os soldados caídos por terra, não ter havido qualquer reação positiva deles, de entender que Jesus, com aquele poder, não poderia ser um malfeitor! Judas, conhecendo os milagres de Cristo, talvez não tenha estranhado aquele portento e possa ter acreditado que Jesus viesse a salvar-se fazendo alguma manifestação como essa. Ao perceber, depois, que Jesus não mais manifestou qualquer poder em sua defesa, caiu em si sobre o erro de sua decisão de entregar Jesus. Arrependeu-se, mas não teve a humildade de pedir perdão, pois já estava totalmente entregue ao Diabo.

68. JESUS APARECE A MARIA MADALENA: Maria tinha ficado fora chorando junto ao túmulo. Enquanto ainda chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. Viu então dois anjos vestidos de branco, sentados onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um na cabeceira e outro nos pés. Então os anjos perguntaram: “Mulher, por que você está chorando?”. Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”.  Depois de dizer isso, Maria virou-se e viu Jesus de pé; mas não sabia que era Jesus. E Jesus perguntou: “Mulher, por que você está chorando?” Quem é que você está procurando?”. Maria pensou que fosse o jardineiro e disse: “Se foi o senhor que levou Jesus, diga-me onde o colocou, e eu irei buscá-lo”. Então Jesus disse: “Maria”. Ela virou-se e exclamou em hebraico: “Rabuni!” (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: “Não me segure, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: ‘Subo para junto do meu Pai, que é Pai de vocês, do meu Deus, que é o Deus de vocês’”. Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor”. E contou o que Jesus tinha dito (Jo 20, 11 – 18) –   Este episódio é relatado também em Mateus (28, 9-10), com profusão de detalhes, e em Marcos (16, 9-11), embora, neste, de forma muito suscinta. Em Mateus, diferentemente de João e Marcos, Maria Madalena está acompanhada da “outra Maria”. É interessante notar que, antes de um grande acontecimento, os anjos costumam aparecer para prepará-lo. Aqui, os anjos aparecem a Maria Madalena antes que ela visse o Senhor, como que preparando-a para o grande encontro! Mas somente quando Jesus a chama por seu nome (“Maria”) é que ela é capaz de reconhecer o Senhor. No entanto, para que Jesus a chamasse pelo nome, ela teve a iniciativa de “procurar” o Senhor. Que nós tenhamos, também, esta iniciativa de procurar o Senhor e que possamos ouvir de sua boca o nosso nome... e, assim, possamos reconhecer claramente o Senhor Jesus!

69. JESUS ENTRA COM AS PORTAS TRANCADAS:  Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor (Jo 20, 19 – 20) – Este episódio, como o acima, é relatado também em Marcos (16, 14) e em Lucas (24, 36 – 43). A primeira palavra que Jesus dirige aos discípulos, depois de sua Ressurreição, é um desejo de que a “paz esteja” com eles. Por que esta preocupação de Jesus? Certamente porque todos os acontecimentos negativos vividos por eles lhes arrancaram a paz, que precisava ser restituída. Isto mostra como o Senhor sabe identificar nossas mais profundas necessidades. Eles precisavam de paz, para anular todas as angústias, os medos e as desilusões. A presença do Cristo Ressuscitado é a garantia de sua paz. Ao desejar aos discípulos a paz, Jesus, na verdade, deseja que eles (e nós, hoje) o acolham com fé e amor: Ele é a nossa Paz!

70. MUITOS ACREDITARAM ANTES DE TOMÉ: Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos disseram para ele: “Nós vimos o Senhor”. Tomé disse: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei”. Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Desta vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Depois, disse a Tomé: “Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!”. Jesus disse: “Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem terem visto” (Jo 20, 24 – 29) – Este episódio, somente narrado por João, é um testemunho magnífico de um discípulo que, como nós, talvez, teve dúvidas sobre a realidade da Ressurreição de Jesus. E ao ser confrontado com o Ressuscitado e ter visto e, provavelmente, colocado os dedos nas chagas de Jesus, cai de joelhos e reconhece sua incredulidade transformada em fé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Tomé duvidou por nós! Que nós creiamos com Tomé e testemunhemos como ele: “Meu Senhor e meu Deus!”. E as palavras de Jesus, citando aqueles que “acreditaram sem terem visto”, devem referir-se àqueles discípulos que acolheram Jesus no Domingo de Ramos, cheios de alegria e esperança, mas que foram surpreendidos pela prisão, pela flagelação e pela morte na cruz daquele que “vem em nome do Senhor”. Estes, também entristecidos, ao terem recebido dos apóstolos, durante uma semana, o testemunho de que Jesus estava vivo, certamente “acreditaram”, e mereceram ser lembrados por Jesus: “Felizes os que acreditaram sem terem visto”.

71. A PESCA MILAGROSA: Quando amanheceu, Jesus estava na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Rapazes, vocês têm alguma coisa para comer?”. Eles responderam: “Não”. Então Jesus falou: “Joguem a rede do lado direito da barca, e vocês acharão peixe”. Eles jogaram a rede e não conseguiam puxá-la para fora, de tanto peixe que pegaram. Então o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor”. Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu a roupa, pois estava nu, e pulou dentro d’água. Os outros discípulos foram na barca que estava a uns cem metros da margem. Eles arrastavam a rede com os peixes. Logo que pisaram em terra firme, viram um peixe na brasa e pão. Jesus disse: “Tragam alguns peixes que vocês acabaram de pescar”. Então Simão Pedro subiu na barca e arrastou a rede para a praia. Estava cheia de cento e cinquenta e três peixes grandes. Apesar de tantos peixes, a rede não se arrebentou. Jesus disse para eles: “Vamos, comam”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus se aproximou, tomou o pão e distribuiu para eles. Fez a mesma coisa com o peixe (Jo 21, 4 – 13) – Este episódio, também exclusivo do evangelista João, mostra Jesus que, novamente sem a aparência conhecida pelos discípulos, procura desafiar a sua fé, desejando ser identificado apenas pelos “sinais” realizados no meio deles: a pesca milagrosa; a rede que não se arrebenta e a própria aparência diferente de Jesus. Esta, podendo significar que, depois da Ressurreição de Jesus, seu rosto não terá tanta importância quanto a fé na sua Ressurreição e na sua presença conosco “até o fim dos tempos”. Por isso, o rosto de Jesus, representado por tantas e variadas pinturas e obras de arte, ao longo da história, embora diferentes entre si, são imediatamente reconhecidas pelos crentes como o Cristo Ressuscitado!

Uilso Aragono (Outubro, 2021)


 

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Sou formado em Engenharia Elétrica, com mestrado e doutorado na Univ. Federal de Santa Catarina e Prof. Titular, aposentado, na Univ. Fed. do Espírito Santo (UFES). Tenho formação, também, em Filosofia, Teologia, Educação, Língua Internacional (Esperanto), Oratória e comunicação. Meu currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4787185A8

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